O efeito de sentido causado pelos aspectos
de oralidade presentes na crônica

Lúcia Maria de Assis (USP e UBM)

Introdução

Fala e escrita são duas modalidades lingüísticas que não devem ser tratadas de forma dicotômica, como já afirmaram Marcuschi (1986), Fávero et alli. (1999), uma vez que fazem parte de um contínuo comunicativo que vai variar, inclusive, de acordo com a situação de interlocução (formal/informal).

Entretanto, uma das principais características da fala (e isto bem a diferencia da escrita) é a necessária presença dos interlocutores (real ou virtual) no momento em que o texto se concretiza, ou seja, a fala é uma atividade que se desenvolve com múltiplas vozes, num encontro face a face ou virtual (via telefone ou via internet). É o encontro dos interlocutores no mesmo eixo temporal que diferencia esta modalidade daquela (a escrita), pois possibilita e necessita da intervenção dos interlocutores na construção textual.

Todavia, como tais modalidades pertencem ao já referido contínuo comunicativo, é possível a observação de textos escritos que tenham bastante proximidade dos textos falados. Na literatura, isso se exemplifica bem com as crônicas, gênero discursivo que aqui se examina.

Fundamentação teórica:

A crônica tem seu objeto, segundo Neves (1992:75), “no cotidiano construído pelo cronista através da seleção que o leva a registrar alguns aspectos e eventos e abandonar outros”. Por isso é comum se dizer que se trata de um gênero híbrido que oscila entre a literatura e o jornalismo, resultado da visão pessoal, subjetiva do cronista ante um fato qualquer, ou seja, a crônica é um registro do tempo, seja retomada do passado ou flagrante do presente.

Diz Arrigucci (1999) que, para realizar a tarefa de resgate ou flagrante temporal de forma que não canse o leitor, na crônica procura-se esconder a complexidade pressentida sob uma límpida naturalidade por meio do disfarce numa suposta conversa sem rumo.

Para Martins (1980:03), a crônica “parece residir na relação com a palavra falada e com a elocução oral”, possuindo um “estilo que se aproxima da marcha do pensamento no momento mesmo em que se produz, sem artifícios intermediários para a expressão do que está na alma.

Importa, ainda, ressaltar as palavras de Candido (1992:16), que diz haver nela uma “linguagem simplória, fazendo com que haja maior proximidade entre as normas da língua escrita e da língua falada, pois o cronista elabora seu texto à semelhança de um diálogo entre ele e o leitor”. Segundo tal autor, a crônica opera milagres de simplificação e naturalidade, demonstrando a busca da oralidade na escrita, isto é, de quebra de artifício e de aproximação com o que há de mais natural no modo de ser do nosso tempo.

A fim de comprovar tais afirmações e de descrever como esse dialogismo ocorre, toma-se, a partir desse momento, a crônica Avô e Neta, de José Carlos de Oliveira, constante no volume 7 da série Para Gostar de Ler, 11ª edição,1995.

Aspectos da fala

Como no texto falado, a crônica organiza-se por meio de troca de turnos e de estruturação tópica, o que ocorre com o emprego de marcadores conversacionais, pares adjacentes e de atividades de formulação.

Quanto aos turnos, é comum a alternância ocorrer em forma de dílogos, trílogos e polílogos. Em “Avô e Neta,” ocorrem dílogos, uma vez que o texto se desenvolve em torno de duas personagens - o avô e sua neta -, as quais conversam sobre a bandeira brasileira. Sendo assim, salvo intervenções do narrador, a cada turno produzido pela neta corresponde um turno do avô. De maneira geral, os turnos presentes são do tipo pergunta-resposta e neles observa-se uma relação de assimetria, apesar das constantes trocas nos papéis de ouvinte/falante. A assimetria deve-se ao fato de a neta direcionar a conversação: é por meio de suas perguntas que os subtópicos vão-se inserindo e o diálogo desenvolvendo.-se.

Segundo Galembeck (1995), os turnos conversacionais podem ser nucleares e inseridos, de acordo com seu valor na conversação. Como na crônica sob análise os turnos sempre desenvolvem o tópico discursivo, é correto afirmar que se tratam de turnos nucleares, ou seja, “possuem valor referencial nítido, pois veiculam informações” (Galembeck, idem:61).

Tais afirmações podem ser verificadas nos seguintes fragmentos:

Neta: Vô... que pano é aquele que está ali naquele pau, tomando chuva?

(Inserção do tópico discursivo por meio do par adjacente pergunta-resposta)

Avô: Ah... Bem, Glorinha... Aquele pau não é um pau como outro qualquer. Aquele pau é um mastro. E aquele pau não é um pano qualquer. Aquilo é uma bandeira. A nossa bandeira, compreende? A bandeira do Brasil.

Neta: Vô... Uma bandeira é o quê? Um brinquedo?

Avô: De certa forma é um brinquedo, mas um brinquedo muito sério. Vou te explicar. Quando você tira um retrato, sendo pequenina, você aparece inteirnha no retrato. Certo?

Neta: Vô... quem foi Augusto da Paz? (Redirecionamento do tópico)

Avô: O quê?

Neta: quem foi Augusto da Paz? Eu vejo todo mundo cantando na televisão: “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo Augusto da Paz”...

Avô: Ah, Glorinha, você tem cada uma... Essa pergunta eu não sei responder não... Daria muito trabalho.

Os turnos examinados, e também os outros, desenvolvem-se em torno de uma estruturação tópica, ou melhor, geram tal estruturação. O tópico, de acordo com Fávero (1995:39), constitui “uma atividade construída cooperativamente havendo correspondência de objetivos entre os interlocutores”. Na prática, a neta tem interesse em fazer perguntas sobre a bandeira do Brasil e o avô está disposto a respondê-las, ou seja, ele está interessado no tópico discursivo em desenvolvimento. Repetindo Aquino (1991:60), afirma-se que o tópico é “um elemento fundamental na estruturação do discurso”, pois é ele que dá a noção do todo organizado ao texto.

De acordo com Marcuschi (1986), a estruturação tópica pode ser dividida em supertópicos, tópicos e subtópicos. Em Avô e Neta pode-se dizer que “Dúvidas da neta” é o supertópico, uma vez que todo o diálogo desenvolve-se em torno das questões que a menina levanta. Na primeira alternância de turnos já se pode observar a introdução do tópico “reconhecimento do objeto”; seguindo as alternâncias, encontramos os tópicos “o hino da bandeira” e “utilidade da bandeira”. Cada tópico desses, ainda pode sofrer algumas variações (porções menores dentro do mesmo tópico), as quais chamamos de subtópicos. Assim:

Neta: Vô... Que pano é aquele que está ali naquele pau, tomando chuva? (Introdução do supertópico “dúvidas da neta” e do tópico “reconhecimento do objeto”)

Avô: Bem...”Salve lindo é o hino da bandeira. (introdução do tópico “hino da bandeira”)

Neta: Vô... Uma bandeira é o quê? Um brinquedo?

Avô: de certa forma é um brinquedo, mas um brinquedo muito sério. Vou te explicar. (introdução do tópico “utilidade da bandeira”)

Para que o tópico seja estruturado satisfatoriamente é necessário que estejam presentes as propriedades de centração e organicidade. De acordo com Fávero (idem:40), a primeira refere-se ao “falar acerca de alguma coisa, utilizando referentes explícitos ou inferíveis” e a segunda coordena e subordina o tópico. Na crônica analisada, tais propriedades podem ser observadas pelo fato de todos os tópicos e subtópicos estarem relacionados ao supertópico “dúvidas da menina”.

Outra ocorrência no texto escrito do gênero crônica, que o aproxima do falado é o emprego de marcadores conversacionais, o que ocorre com maior freqüência em início e final de seqüência. A função dos marcadores não é previamente definida, por isso são chamados de elementos multifuncionais. É o contexto que determina a função que a palavra ou expressão desempenha nesse ou naquele lugar do texto. Tais recursos não apresentam informação nova ao texto, mas contribuem para o desenvolvimento do tópico discursivo.

Quando a neta pergunta ao avô o que é o pano no pau, ele necessita de um tempo para formular sua resposta, precisa pensar como explicar de forma simples para que uma criança de três anos entenda. Esse momento de reflexão é denunciado pela utilização de dois marcadores conversacionais. Ao final da explicação, o avô quer se certificar de que a menina entendeu o que ele explicou; para isso, ele utiliza um novo marcador conversacional

Neta: Vô... Que pano é aquele que está ali naquele pau, tomando chuva?

Avô: Ah... Bem, Glorinha... Aquele pau não é um pau qualquer. Aquele pau é um mastro. E aquele pano não é um pano qualquer. Aquilo é uma bandeira. A nossa bandeira, compreende? A bandeira do Brasil.

No final do texto, vemos outra vez o marcador Ah, utilizado no início. Neste trecho, ela já não denuncia tempo para formulação, mas decepção (depois de tudo o que já foi explicado pelo avô a respeito da bandeira, a menina faz uma pergunta que demonstra que ela não havia entendido nada).

Neta: Quem foi Augusto da Paz? Eu vejo todo mundo cantando assim na televisão: “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo Augusto da Paz”...

Avô: Ah, Glorinha, você tem cada uma... Essa pergunta eu não sei responder não... Daria muito trabalho.

Voltando um pouco, quando a menina quer saber se a bandeira é um brinquedo, vemos a ocorrência de dois marcadores, ou melhor, o mesmo marcador conversacional ocorre duas vezes com funções distintas. Observe:

Neta: Vô... Uma bandeira é o quê? Um brinquedo?

Avô: De certa forma é um brinquedo, mas um brinquedo muito sério. Vou te explicar. Quando você tira um retrato do Brasil, sendo pequenina, você aparece inteirinha no retrato. Certo?

Neta: Certo.

Quando o avô utiliza o MC certo?, ele tem a intenção de se certificar de que a menina compreendeu a explicação, servindo também como denúncia de fechamento do turno. Em seguida, quando é a menina que o utiliza, a intenção é de demonstrar compreensão.

Aspectos de escrita:

As características abordadas são apenas algumas das que evidenciam a proximidade da crônica com a modalidade falada da língua. Por outro lado, entretanto, no texto encontram-se também inúmeras características muito próprias da escrita; ocorrências que, num texto realmente dialogado, construído a duas vozes, seriam dispensáveis. Dentre elas, pode-se citar o que ocorre no início da crônica, momento em que é necessária a intervenção de um narrador para apresentar o cenário, as personagens e esclarecer, pelo menos parcialmente, sobre o que eles vão conversar:

Narrrador: O avô que veio de Minas está sentado num sofá, junto da neta, diante da janela panorâmica do apartamento. O avô está de pijama e chinelos e a neta está sossegada, curtindo aquele avô que veio de Minas para morar na casa dela, no Leblon. Através da vidraça, do outro lado da janela, eles vêem uma agência dos Correios e Telégrafos, em cujo mastro está hasteada, batida de chuva, a bandeira brasileira. É o dia 19 de novembro. O nome da menina é Glorinha; o do velho vovô Matos. A menina vai fazer três anos não demora. Para curtir o avô, que gosta muito de explicar as coisas e contar histórias, ela puxa o papo:

Noutro momento, quando o avô cantarola o hino da bandeira, faz-se novamente necessária a intervenção do narrador:

Avô: Bem... “Salve lindo” é o hino da bandeira. (Cantarolando) “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz”... Não é isso?

Se observarmos a linguagem empregada pela neta, personagem de quase três anos de idade, podemos concluir que a forma como a menina fala está em desacordo com aquela como as crianças nessa idade o fazem. Ao produzir o texto, mesmo com o hibridismo fala/escrita, não se conseguiu (talvez não tenha havido a intenção) reproduzir a maneira como as crianças falam, contendo os desvios normativos próprios da idade. Em outras palavras, podemos dizer que, apesar de simular a espontaneidade da fala, na crônica ainda é utilizada uma linguagem mais próxima do padrão lingüístico, mesmo quando se representam contextos em que isso não ocorre na conversação oral dialogada. Sendo assim, temos falas da menina que, além de serem gramaticalmente muito elaboradas, contêm um nível de compreensão de vocabulário mais elevado do que normalmente acontece com as crianças (pelo menos com as dessa idade), como no momento em que a menina demonstra ter entendido o que se canta no hino a partir de uma audição pela televisão. Embora não tenha entendido o significado, a compreensão da palavra pendão já é difícil para a faixa etária:

Neta: Quem foi Augusto da Paz? Eu vejo todo mundo cantando assim na televisão: “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo Augusto da Paz”...

Se observarmos qualquer outra fala da menina, não encontraremos nenhuma troca de fonema, nem concordância inadequada, o que demonstra a artificialidade da fala, ou melhor, demonstra características da modalidade escrita, na qual há tempo para reler o que se escreveu, corrigir as impropriedades e buscar uma forma mais clara a fim de alcançar mais facilmente a compreensão do outro.

Outras ocorrências que demonstram proximidade com a modalidade escrita da língua são: o emprego de parágrafos; a utilização de reticências para indicar hesitação, silêncio, e tempo para elaboração do pensamento; ausência de sobreposição e de tentativas de assalto aos turnos, características que só poderiam ocorrer na escrita por meio de uma denúncia do narrador.

Conclusão

Diante do exposto, vemos que a crônica, esse gênero literário leve, descontraído, que, atualmente, tem como função maior a distração a partir do flagrante de fatos que não teriam tanta importância, pois são cotidianos, rotineiros, é uma gênero textual que bem emprega características de duas modalidades lingüísticas - a falada e a escrita -, conforme afirmara Assis (2002:106), em trabalho homônimo a este, no qual diz que a crônica é um gênero discursivo híbrido, uma vez que seu formato é obtido através do dialogismo escrito-falado. Sendo assim, facilmente encontram-se características advindas da simulação de um produto de atividade apenas relativamente passível de planejamento - a fala -, aliadas às de um outro completamente planejável - a escrita.

Afirma-se, com isso, que as crônicas, antes de se tornarem públicas, passam por uma revisão e, posteriormente, por uma correção textual, momentos em que se eliminam impropriedades conseqüentes da rapidez do fluxo do pensamento, restando-lhes como características da fala apenas o que o autor criou intencionalmente, em busca de dar a seu texto a simplicidade e a superficialidade peculiares do gênero.

A observação das características desse gênero literário e discursivo reforça-nos, então, a afirmação de que fala e escrita não são modalidades dicotômicas, mas pertencentes a um contínuo comunicativo, no qual as características mais próprias da fala podem aparecer, inclusive, integradas às da escrita, pois o que determina a forma de organização textual é o propósito do evento e a condição dos interlocutores.

 

Referências Bibliográficas

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CANDIDO, A. A vida ao rés-do-chão. CANDIDO, A. (org.) A crônica: O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: Unicamp, 1992. p.13-22.

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FÁVERO. L. L. , ANDRADE, M. L. C. V. O. e AQUINO, Z. G. O. Oralidade e Escrita - perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 1999.

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MARCUSCHI, L. A.. Análise da Conversação, 4 ed. São Paulo: Ática, 1986.

MARTINS, S. J.