A CATEGORIA DE GÊNERO
NOS SUBSTANTIVOS E NOS ADJETIVOS
[1]

José Pereira da Silva (UERJ)

 

A história da gramaticologia ocidental moderna, é bom que seja lembrado, inicia-se com a greco-latina, com numerosas e indesculpáveis conseqüências terminológicas absolutamente distanciadas das diversas realidades lingüísticas descritas ou normatizadas.

Todos sabemos que as modernas gramáticas das línguas românicas, de Nebrija a Bechara, vêm adotando uma adaptação terminológica das gramáticas latinas que, por sua vez, não fizeram uma boa adaptação da terminologia da gramaticologia grega, muito mais fiel à tradição do que à ciência lingüística, que não se pode considerar adolescente.

É natural que a preocupação dos gramáticos greco-latinos não era a descrição da língua, conforme se faz na lingüística moderna, sem qualquer praticidade ou pragmatismo. Em princípio, era uma gramática normativa, com o objetivo de indicar, pedagógica e exemplarmente, as formas corretas da língua, abonadas com a autoridade dos escritores corretos.

Eis o que disse Bruno Fregni Bassetto no VII Congresso Nacional de Lingüística e Filologia em agosto de 2003, absolutamente de acordo com o que pensam os reformistas mais incomodados com a descabida inadequação da terminologia lingüística ocidental moderna (BASSETTO, 2003: 63):

Em relação à nossa terminologia gramatical, urge não esquecer que, em grande parte, ela remonta a Dionísio Trácio, que escreveu a primeira gramática do Ocidente. Os gramáticos latinos (Varrão, Aulo Gélio, Carísio, Donato, Prisciano) apenas adaptaram, traduziram ou apenas decalcaram os termos gregos. No correr dos séculos, muitos desses termos tiveram seu conteúdo semântico ampliado ou reduzido, empanando a indispensável transparência que uma terminologia científica de qualquer área do conhecimento humano precisa ter. Penso que seria muito útil se voltássemos à etimologia dos termos da nomenclatura gramatical das vertentes grego-latinas, evitando sobretudo ampliações semânticas indevidas. O resultado certamente seria profícuo sobretudo nos diversos níveis de ensino. Memorizam-se os termos gramaticais sem que se perceba a relação significante-significado e esse fato impede a compreensão clara do fato lingüístico estudado. Todos os que se dedicam a esse ramo do conhecimento humano, como Gladstone Chaves de Mello, sentem o problema e com ele se angustiam; uma reforma da nomenclatura gramatical deve levar em conta essas vertentes greco-latinas, cujas contribuições não podem ser ignoradas mas sim expurgadas de aplicações indevidas e obnubiladas, que lhe foram acrescidas ao longo dos séculos. Os avanços atuais nos estudos da linguagem podem e devem ser adicionados, mas mesmo esses partem daquelas bases.

Não podemos ignorar o esforço de gramáticos como Walmírio Macedo (1991), Evanildo Bechara (1999 e 2001), Manoel Pinto Ribeiro (2002) e muitos outros, que vêm lutando com essa enorme dificuldade terminológica, além de toda a Academia Brasileira de Filologia, empenhada na reforma da Nomenclatura Gramatical Brasileira vigente (mas não tão vigente).

 

QUESTÕES DE FLEXÃO E DE GÊNERO

Em geral, há uma grande dificuldade em distinguir tecnicamente a flexão da derivação, como se pode ver em BECHARA (1999: 341), pois

A flexão consiste fundamentalmente no morfema aditivo sufixal acrescido ao radical, enquanto a derivação consiste no acréscimo ao radical de um sufixo lexical ou derivacional.: casa + s: casas (flexão de plural); casa + inha: casinha (derivação).

...............................................................................

No plano sintagmático, a flexão provoca o fenômeno da concordância: móvel novo móveis novos em oposição a a casa nova → a casinha nova.

Ora, se mal se consegue distinguir flexão de derivação, o que levou a NGB a definir o grau como flexão, e se o conceito de gênero nas línguas românicas tem sido quase sempre confundido com o conceito de sexo, não seria óbvia uma definição adequada para essa categoria.

O Professor Castelar de Carvalho, defendendo a posição oficial sobre o problema do gênero do substantivo como flexão, indicou-nos o livro Morfologia Portuguesa, do Professor José Lemos Monteiro (2002), que mais nos ajudou na confirmação de nossa hipótese, pois afirma, na página 79, referindo-se às categorias nominais de gênero e de número:

Observemos que nem todo nome ou pronome possui essas quatro subcategorias [de gênero masculino e feminino e de número singular e plural]. Estruturalmente, uma subcategoria sempre se opõe a outra. Ou seja, uma palavra apresenta a marca do masculino se tiver um feminino correspondente. Não plural sem singular e vice-versa.

E continua o Professor, dando o exemplo que nos ajudou, visto que não se pode falar de flexão quando a nova forma significa (no mundo exterior) outra coisa diferente da que supostamente sofreu mera flexão:

Os masculinos saco, ele, doutor, ateu e espanhol estão marcados pela desinência zero (Ø) que se opõe ao morfe [a] dos femininos saca, ela, doutora, atéia e espanhola.

Está evidente que o autor se enganou porque saca não é uma flexão de saco, mas um tipo diferente de embalagem, assim como cavala não é o feminino de cavalo, pasta não é o feminino de pasto e casa não é feminino de caso, como ensina, corretamente, na página 80:

De modo análogo, em máquina, caneta, criatura e sacola, o [a] final não constitui desinência de gênero, mas vogal temática. Será erro considerar o morfe zero como traço desinencial opositivo do gênero das palavras citadas. O zero deve ser usado sempre na ausência de morfe, jamais na inexistência de morfema.

Com relação a formas do tipo cavalo, pasta, casa e carteira, também não se fala em desinência de gênero, embora haja as formas cavala, pasto, caso e carteiro. É que falta a correspondência semântica, fundamental na caracterização do gênero.

Na verdade, para esclarecer grande parte do que discutiremos a seguir, é indispensável distinguir flexão de derivação, o que poderemos fazer, levando em consideração também as palavras de José Carlos Azeredo (2000: 82):

A derivação é um processo que origem a novos lexemas ou palavras [...], enquanto a flexão produz variações da forma de um lexema, dando origem ao que chamamos vocábulos morfossintáticos.

O dicionário registra os lexemas, e não os vocábulos morfossintáticos, porque estes são formas flexionadas.[2]

Mais adiante, no parágrafo 219 o Professor José Carlos Azeredo (2000: 110-1) dá as seguintes razões que nos esclarecem sobre a distinção entre flexão e derivação, considerando a marcação de gênero de substantivo como uma derivação:

·        o conceito de flexão é incompatível com a quantidade de “exceções” observada na classe dos substantivos. Para muitos substantivos emo não existe contraparte feminina em uso (mosquito, besouro, papagaio, lagarto (lagarta é um inseto), veado, camundongo); em outros pares de nomes, a fêmea é designada por meio de um lexema que nenhuma regra é capaz de produzir (homem / mulher, carneiro / ovelha, cavalo / égua etc.);

·        a flexão expressa a variação formal da mesma palavra (feio / feia / feios / feias, saber / sei / sabendo / soubesse, leão / leões). Coelho e coelha não são duas formas da mesma palavra, mas palavras lexicais distintas (MATHEWS, 1974; BECHARA, 1999). A atribuição de um gênero diferente a uma unidade lexical substantiva é uma forma de criar um novo substantivo, isto é, um processo de derivação;

·        a criação e o emprego de certos nomes femininos (chefa, sargenta, presidenta), ou mesmo de certos nomes masculinos (borboleto, formigo, pulgo, possíveis nas histórias infantis) são freqüentemente encarados como opções pessoais ou escolhas estilísticas dos falantes, o que não acontece quando estamos diante de uma flexão regular.

Tratando dos aumentativos e diminutivos, Bechara esclarece mais sobre o conceito de flexão (BECHARA, 1999: 140):

A flexão se processa de modo sistemático, coerente e obrigatório em toda uma classe homogênea, fato que não ocorre na derivação, o que levara o gramático e erudito Varrão a considerá-la uma derivatio voluntaria.

Para não buscar outra bibliografia, relacionei os primeiros cem substantivos abaixo, registrados no Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, encontrei um substantivo que tenha uma forma masculina e outra feminina (“abade” / “abadessa”), com exceção daqueles que podem funcionar tanto como substantivos quanto como adjetivos, evidenciando que a o gênero do substantivo não é formado por flexão:

a

aabora

aachense

aacheniano

aal

aaleniano

aaleniense

aalênio

aalense

aaquenense

aaqueniano

aardvark

aardwolf

aariano

aarônida

aaronita

aaru

ãatá

aavora

aba

ababá

ababaia

ababalhos

ababangai

abá-baxé-de-ori

ababone

ababoni

ababuí

abaca

abacá

abaçá

abacaí

abaçaí

abaçanamento

abacatada

abacataia

abacatal

abacate

abacate-do-mato

abacateiral

abacateiro

abacaterana

abacatirana

abacatuaia

abacatuia

abacaxi

abacaxibirra

abacaxi-branco

abacaxicultor

abacaxicultura

abacaxi-de-tingir

abacaxi-silvestre

abacaxizal

abacaxizeiro

abacé

ábace

abaceias

abacebilidade

abacelabilidade

abacelamento

abacenino

abacense

abaci

abácia

abaciado

abaciamento

abácias

abaciato

abácida

abacinamento

abacisco

abacista

ábaco

abacômita

abacomitato

abacômite

abacondado

abaconde

abacote

abactínea

abacto

abactor

abáculo

abacutaia

abada

abadá

aba-de-estrela

abadágio

abadalassa

abadão

abadavina

abade

abadejo

abadengo

abadense

abadema

abadessa

abadessado

abadia

abadianense

O mesmo gramático (BECHARA, 1999: 131) ainda lembra queTodo substantivo está dotado de gênero, que, no português, se distribui entre o grupo do masculino e o grupo do feminino”. Mas, logo no início da página seguinte dá uma informação nova e revolucionária entre os mais conhecidos gramáticos brasileiros: “ que esta determinação genérica não se manifesta no substantivo da mesma maneira que está representada no adjetivo ou no pronome, por exemplo, isto é, pelo processo de flexão”.

Continuarei transcrevendo a Gramática do Bechara, que, além de ser autoridade respeitada entre os filólogos, lingüistas e gramáticos de todo mundo ocidental, teve a coragem de enfrentar os tradicionalistas para desmascarar essa farsa de flexão de gênero dos substantivos (BECHARA, 1999: 132-134):

Apesar de haver substantivos em que aparentemente se manifeste a distinção genérica pela flexão (menino / menina, mestre / mestra, gato / gata), a verdade é que a inclusão num ou noutro gênero depende direta e essencialmente da classe léxica dos substantivos e, como diz Herculano de Carvalho, “não é o fato de em português existirem duas palavras diferentes homem / mulher, pai / mãe, boi / vaca, e ainda filho / filha, lobo / loba (das quais estas não são formas de uma flexão, mas palavras diferentes tanto como aquelas) – para significar o indivíduo macho e o indivíduo fêmea (duas espécies do mesmogênero”, em sentido lógico) que permite afirmar a existência das classes do masculino e do feminino, mas, sim, o fato de o adjetivo, o artigo, o pronome, etc., se apresentarem sob duas formas diversas exigidas respectivamente por cada um dos termos de aqueles pares opostos –, “este homem velho” / “esta mulher velha”, “o filho mais novo” / “a filha mais nova” –, formas que de fato constituem uma flexão”. (CARVALHO, [s/d.]a: v. 9, s.v. gênero)

A aproximação da função cumulativa derivativa de –a como atualizador léxico e morfema categorial se manifesta tanto em barca de barco, saca de saco, fruta de fruto, mata de mato, ribeira de ribeiro, etc., quanto em gata de gato, porque dá “ao tema de que entra a fazer parta a capacidade de significar uma classe distinta de objetos, que em geral constituem uma espécie de gênero designado pelo tema primário” (CARVALHO, [s/d.]b: 536 n. 38; [s/d.]c: 21). É pacífica mesmo entre os que admitem o processo de flexão em barco barca e lobo loba, a informação de que a oposição masculino feminino faz alusão a outros aspectos da realidade, diferentes da diversidade de sexo, e serve para distinguir os objetos substantivos por certas qualidades semânticas, pelas quais o masculino é uma forma geral, não-marcada semanticamente, enquanto o feminino expressa uma especialização qualquer:

barco / barca ( = barco grande)

jarro / jarra (um tipo especial de jarro)

lobo / loba (fêmea do animal chamado lobo)

Esta aplicação semântica faz dos pares barco / barca e restantes da série acima não serem consideradas primariamente formas de uma flexão, mas palavras diferentes marcadas pelo processo de derivação. Esta função semântica está fora do domínio da flexão. A analogia material da flexão de gênero do adjetivo é que levou o gramático a pôr no mesmo plano belo / bela e menino / menina.

Este fato explica por que na manifestação do gênero no substantivo, entre outros processos, existe a indicação por meio de sufixo nominal: conde / condessa, galo / galinha, ator / atriz, embaixador / embaixatriz, etc.

Sem ser função precípua da morfologia do substantivo, a diferença do sexo nos seres animados pode manifestar-se ou não com diferenças formais neles. Esta manifestação se realiza ou pela mudança de sufixo (como em menino / menina, gato / gata) – é a moção –, ou pelo recurso a palavras diferentes que apontam para cada um dos sexos – é a heteronímia (homem / mulher, boi / vaca). Na primeira série de pares, como vimos na lição de Herculano de Carvalho, não temos formas de uma flexão, mas, nelas, como na segunda série de pares, estamos diante de palavras diferentes.

Quando não ocorre nenhum destes dois tipos de manifestação formal, ou o substantivo, com o seu gênero gramatical, se mostra indiferente à designação do sexo (a criança, a pessoa, o cônjuge, a formiga, o tatu) ou, ainda indiferente pela forma, se acompanha de adjuntos (artigos, adjetivos, pronomes ou numerais) com moção de gênero para indicar o sexo (o artista, a artista, bom estudante, boa estudante).

 

Inconsistência do gênero gramatical

A distinção do gênero nos substantivos não tem fundamentos racionais, exceto a tradição fixada pelo uso e pela norma; nada justifica serem, em português, masculinos lápis, papel e tinteiro e femininos caneta, folha e tinta.

A inconsistência do gênero gramatical fica patente quando se compara a distribuição de gênero em duas ou mais línguas, e até no âmbito de uma mesma língua histórica na sua diversidade temporal, regional, social e estilística. Assim é que para nós o sol é masculino e para os alemães é feminino die Sonne, a lua é feminino e para eles masculino das Mond; enquanto o português mulher é feminino, em alemão é neutro das Weib. Sal e leite são masculinos em português e femininos em espanhol: la sal e la leche. Sangue é masculino em português e francês e feminino em espanhol: le sang (fr.) e la sangre (esp.).

Mesmo nos seres animados, as formas de masculino ou do feminino podem não determinar a diversidade de sexo, como ocorre com os substantivos chamados epicenos (aplicados a animais irracionais), cuja função semântica é apontar para a espécie: a cobra, a lebre, a formiga ou o tatu, o colibri, o jacaré, ou os substantivos aplicados a pessoas, denominados comuns de dois, distinguidos pela concordância: o / a estudante, este / esta consorte, reconhecido / reconhecida mártir, ou ainda os substantivos de um gênero denominados sobrecomuns, aplicados a pessoas, cuja referência a homem ou a mulher se depreende pela referência anafórica do contexto: o algoz, o carrasco, o cônjuge.

 

A mudança de gênero

Aproximações semânticas entre palavras (sinônimos, antônimos), a influência de terminação, o contexto léxico em que a palavra funciona, e a própria fantasia que moldura o universo do falante, tudo isto representa alguns dos fatores que determinam a mudança do gênero gramatical dos substantivos. Na variedade temporal da língua, do português antigo ao contemporâneo, muitos substantivos passaram a ter gêneros diferentes, alguns sem deixar vestígios, outros como mar, hoje masculino, onde o antigo gênero continua presente em preamar (prea = plena, cheia) e baixa-mar.

foram femininos fim, planeta, cometa, mapa, tigre, fantasma, entre muitos outros; foram usados como masculinos: árvore, tribo, catástrofe, hipérbole, linguagem, linhagem (SAID ALI, [1931]: I, 65-70; DOMINGUES, 1932).

Voltando à argumentação contrária a nossa hipótese, transcrevo o tópicoDesinência de gênero ou sufixo?”, do Professor José Lemos Monteiro (2002: 87-87), ao qual farei alguns comentários em notas de de página:

Alguns autores entendem que o morfe [a], marcador do gênero feminino, se alista entre os sufixos derivacionais, quando o vocábulo for um substantivo. Nessa linha, Bechara (1999) parece defender a idéia de que inexiste o processo flexional na distinção entre os gêneros dos substantivos. E Azeredo (2000), acatando a mesma opinião, afirma que a análise do gênero como flexão, embora muito difundida e consolidada, precisa de uma reformulação. A rigor, segundo tais estudiosos, em lobo loba tem-se uma derivação, desde que as formas do masculino e do feminino expressam significações inerentes diversas.

É evidente que, sendo a hipótese difundida por nomes consagrados como os de Bechara e Azeredo, não é para ser desprezada sem uma reflexão mais acurada. A favor dela há, entre outros, o argumento de que o morfe [a] não se aplica sistematicamente a todos os substantivos.[3] Mas esse mesmo argumento poderia valer, por exemplo, para os chamados adjetivos uniformes (doente, simples etc.).[4]

Desse modo, o grande problema para a aceitação da proposta reside no fato de que, morficamente, o adjetivo tem sob esse aspecto o mesmo comportamento do substantivo.[5] Como se pode entender que ambos são nomes, apenas diversificados quanto à função, afirmar que ocorre flexão, quando se trata de adjetivo, e derivação, quando o nome é substantivo, termina descaracterizando a flexão e a derivação como processos morfológicos. Se a coerência e a simplicidade são os princípios que devem nortear uma boa descrição, parece que tais princípios deixam de ser levados em conta, ao se admitir que o [a], embora seja desinência de gênero nos adjetivos, é sufixo derivacional nos substantivos.[6]

Além disso, há outros fatos complicadores. Conforme explica Azeredo (2000: 111), em vocábulos que são potencialmente substantivos e adjetivos (faxineiro, embaixador, sabichão etc.) “existem contrapartes femininas regularmente formadas por flexão”.[7] Ora, a nosso ver, insistimos mais uma vez, substantivos e adjetivos não são classes de palavras, mas funções (Cf. o capítulo finalClasses e funções”), sendo pouco provável encontrar-s um critério capaz de predizer quando um nome funciona exclusivamente como adjetivo ou como substantivo.[8] Os que se caracterizam preferencialmente como substantivos (inteligência, beleza etc.) em geral não admitem oposição de gênero, caso em que o [a] final, se presente, não é desinência nem muito menos sufixo derivacional.

Por outro lado, se entendermos que em pares do tipo coelho e coelha não se tem a mesma palavra, porém duas palavras distintas, o que dizer dos pronomes ou numerais que admitem a oposição de gênero? Os femininos ela, toda, aquela, duas etc. seriam também palavras distintas dos substantivos correspondentes?[9]

Por essas razões, parece prudente manter nesse ponto a tradição gramatical que considera a marca mórfica de gênero como um mecanismo flexional. Mas o assunto continua polêmico e merece novos estudos.[10]

Depois de esclarecer os fundamentos das formas que nos dão a ilusão de flexão de gênero dos nomes que sãopotencialmente substantivos e adjetivos”, o Professor José Carlos Azeredo (2000:111-2):

Em todos os demais casos em que à distinção de gêneros não corresponde uma distinção sistemática de significados, como a oposiçãomacho / fêmea”, os substantivos, embora formados com base no mesmo radical, apresentam relações de significado bastante variáveis ou mesmo de sistematização impossível. Esses pares de substantivos podem ser distribuídos em dois grupos:

Grupo A: nomes que diferem no gênero e na forma: balanço / balança, barco / barca, barraco / barraca, bicho / bicha, bolso / bolsa, braço / braça, caneco / caneca, cerco / cerca, cesto / cesta, cinto / cinta, cunho / cunha, encosto / encosta, espinho / espinha, fosso / fossa, fruto / fruta, grito / grita, horto / horta, jarro / jarra, lenho / lenha, madeiro / madeira, palmo / palma, poço / poça, ramo / rama, saco / saca, veio / veia.

Grupo B: nomes homônimos de gênero diverso: o cabeça / a cabeça, o guarda / a guarda, o caixa / a caixa, o lente / a lente, o moral / a moral, o rádio / a rádio, o capital / a capital, o rosa (cor) / a rosa (flor), o cinza / a cinza, o violeta / a violeta, o guia / a guia.

Como nos lembra John W. Martin (2000: 65), indo um pouco além do que propomos (SILVA, 1999: 9-27) e do que propõe Bechara, “Se não fosse o fenômeno da concordância, não haveria por que falar em gênero para descrever adequadamente a língua”.[11]

O que torna evidente em seu artigo é que os substantivosmarcantes”, que são os femininos, levam os seus determinantes para uma forma “marcada”. O que ocorre quando estão isolados ou em contextospuros”. Em contextosimpurosnãoconcordância. Ex.: Maria é alta. Maria e Joana são altas. Maria e Pedro são altos.

E conclui o articulista (MARTIN, 2000: 68-69):

O termofeminino”, de significação tão francamente polar, faz sentido somente quando oposto a seu contrário, “masculino”, e este, vimos , não tem justificativa numa gramática da língua portuguesa.

No lugar de “gênero”, então, fica o conceito de adjetivos[12] marcados ou não marcados. Os marcados correspondem aos “femininos” da gramática escolar, e aparecem somente quando o adjetivo está relacionado a um substantivo marcante. Os não marcados aparecem EM TODAS AS OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS, haja ou não um substantivo a eles relacionado. É este último fato que determina que o assunto não seja uma mera questiúncula terminológica, pois as conclusões dele decorrentes transformam dum modo essencial nossa maneira de encarar a categorização dos substantivos e o fenômeno da concordância adjetiva.

Na mesma época em que publicávamos o artigo de John W. Martin, Azeredo publicava o livro acima referido, em que escreveu o seguinte nas páginas 108 a 109:

Gênero é uma propriedade gramatical inerente aos substantivos e que serve para distribuí-los em dois grandes grupos: nomes masculinos (carneiro, porco, caderno, muro, caramelo, sol, dia, brilho, clarão) e nomes femininos (ovelha, porca, borracha, parede, bala, lua, noite, claridade, escuridão). Todo substantivo pertence, portanto, a um gênero, que ordinariamente vem indicado nos dicionários. O gênero é, de um modo geral, uma característica convencional dos substantivos historicamente fixada pelo uso. Iso explica por que alguns substantivos mudaram de gênero ao longo do tempo (fim e mar, que foram femininos e hoje são masculinos) ou apresentam gêneros diferentes conforme a variedade de língua (grama (unidade de peso) e cal, cujos gêneros variam conforme os usos da língua: coloquial e informalmente diz-se e escreve-se duzentas gramas, o cal é branco, enquanto nos usos técnicos e formais prefere-se duzentos gramas e a cal é branca).

Nos casos de carneiro / ovelha e porco / porca, o falante de português se vale da oposição de significados entre macho e fêmea para identificar corretamente o gênero desses substantivos. Pode-se, portanto, dizer que, nestes últimos exemplos, o gênero, que é uma classificação eminentemente gramatical, corresponde à – e é motivada pela distinção de conteúdos lexicais. O mesmo não se pode dizer, contudo, dos demais exemplos. O gênero de caderno, muro, caramelo, sol, dia e brilho não tem qualquer fundamento além da convenção social; esse é também o caso de borracha, parede, bala, lua e noite. Quanto a claridade e escuridão, são femininos por força de uma regra morfológica – a que nos diz que são femininos todos os substantivos formados de adjetivos com acréscimo das terminações idade e –idão

Como se , as verdades milenarmente estabelecidas também são dignas de revisões e de novas formulações, com base nas novas ciências que surgem a cada momento e, agora, com muito mais velocidade do que acontecia antes da globalização virtual dos conhecimentos.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEREDO, José Carlos. Fundamentos de gramática do português. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

BASSETTO, Bruno Fregni. As vertentes greco-latinas de nossa nomenclatura gramatical. Cadernos do CNLF, vol. VII, n° 01. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2003, p. 63.

BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.

––––––. Moderna gramática portuguesa. 37ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.

CARVALHO, J. C. Herculano de. Enciclopédia luso-brasileira de cultura. Lisboa: Verbo, [s/d.]a.

––––––. Teoria da linguagem. II. Coimbra: Coimbra, [s/d.]b.

––––––. Estudos lingüísticos. vol. III. Coimbra: Coimbra, [s/d.]c.

DOMINGUES, Conde Pinheiro. Variação de gênero em português. In Revista de cultura. Petrópolis: Vozes, 1932.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

MACEDO, Walmírio. Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Presença, 1991.

MARTIN, John W. Gênero? Revista Philologus, ano 6, n° 16. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr. 2000, p. 65-69.

MATHEWS, P. H. Morphology: An Introduction to the Theory of Word-structure. Cambridge? Cambridge - UP, 1974.

MONTEIRO, José Lemos. Morfologia portuguesa. 4ª ed. rev. e ampl. Campinas: Pontes, 2002.

RIBEIRO, Manoel P. Nova gramática aplicada da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Metáfora, 2002. [ está na 14ª edição].

SAID ALI, Manuel. Gramática histórica da língua portuguesa. 2ª ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d. [1931].

SILVA, José Pereira da. A inexistência da flexão de gênero nos substantivos da língua portuguesa. Letras em foco. Anais da II Semana de Letras e da VI Semana de Lingüística e Filologia. Tomo I: Língua, Lingüística e Filologia. São Gonçalo: DEL(UERJ) / CiFEFiL, 2000, p. 9-27.

 


 

[1] Este tema foi apresentado diversas vezes de uns poucos tempos para como comunicação no II LETRAS EM FOCO, na Faculdade de Formação de Professores, como aula-conferência no IV Seminário Superior de Língua Portuguesa, realizado pela Academia Brasileira de Filologia,.como Conferência de Abertura do Curso de Pós-Graduação de Língua Portuguesa na Universidade Castelo Branco, como conferência na Universidade Salgado de Oliveira e, agora, como minicurso no VIII CNLF.

[2] Veja que os dicionários registram, por exemplo: menino e menina, pato e pata, gato e gata, homem e mulher, mas não, por exemplo: pequena (feminino de pequeno).

[3] Faço questão de lembrar ao Prezado Colega que (exceto os que são potencialmente substantivos e adjetivos) praticamente não se aplica o morfema de gênero ao substantivo. Cf. mais abaixo a lista extraída de HOUAISS (2001).

[4] É claro que o argumento não vale para os adjetivos uniformes, pois estes não mudam de significado como mudam os substantivos dos pares (masculinos / femininos) apresentados como sendo formas flexionadas da mesma palavra. Alguém pode achar que o substantivo menino indica o mesmo ser que o substantivo menina, aos quais se indentifique uma acomodação gramatical?

[5] Engana novamente o Prezado Colega, pois o adjetivo se modifica para concordar com o substantivo a que se refere. E é nisto que consiste a principal diferença entre flexão e derivação, conforme informou o Prof. Bechara, no tópico acima transcrito. Substantivo algum se modifica para concordar com outro, como também ficou mostrado.

[6] Engana-se novamente o Prezado Colega, pois é muito mais incoerência ter de justificar a inexistência de flexão de gênero para mais de noventa por cento dos substantivos de qualquer lista não selecionada, recolhida em qualquer dicionário.

[7] Eis a íntegra do tópico 220, de Azeredo (2000: 111):

220.       “Devemos, entretanto, reconhecer que, para nomes derivados como sabichão, beberrão, trapalhão, francês, português, italiano, americano, cantor, professor, embaixador, verdureiro, faxineiro, existem contrapartes femininas regularmente formadas por flexão (sabichona, francesa, italiana, cantora, faxineira). Explica-se esse fato, seja porque tais nomes são potencialmente substantivos e adjetivos, seja porque contêm ‘sufixos que se flexionam’. Com efeito, os sufixos de grau –(z)ão e –(z)inho variam em gênero. O sufixo –ão apresenta no feminino o alomorfe –on(a). Isso explica a existência de formas tipicamente populares e coloquiais como mulherona, bolsona, cinturona, volona, portona, criados para recuperar o valor de ‘aumentativo’ de certo modo perdido pelas formas em –ão: mulherão, bolsão, cinturão, bolão, portão.

             O sufixo –(z)inho / -(z)inha também se comporta como unidade autônoma em relação ao gênero. É ele, e não o substantivo como um todo, que se flexiona em nomes como pontezinha e pelezinha, que os nomes ponte e pele são de tema em –e. O –a dos diminutivos portinha, ruazinha, pontezinha e pelezinha é desinência de gênero própria do sufixo. A regularidade da presença do –a nos substantivos femininos derivados por meio do sufixo aumentativo ão, e dos sufixos –ês, -or e –eiro também é uma prova de que esse –a é uma desinência de gênero anexa ao próprio sufixo (sabichona, solteirona (subst. ou adj.), francesa (subst. ou adj.), burguesa (subst. ou adj.), escritora, perdedora, lavadora, leiteira, laranjeira, sapateira, banheira).”

[8] É claro que, para dissolver funcionalmente essa dúvida, basta considerar que o nome ambivalente é substantivo quando é o termo determinado e é adjetivo quando é determinante.

[9] É óbvio, caros colegas, que os artigos, pronomes, numerais e adjetivos flexionam em gênero para concordarem com os termos determinados por eles, não carregando nenhuma diferença semântica, mas apenas a alteração de gênero gramatical.

[10] Como está evidente, concordamos com o Ilustre Lingüista e Sócio Correspondente da Academia Brasileira de Filologia quanto a sua última frase, mas, para o bem da ciência lingüística, lutaremos pelo reconhecimento de que os substantivos não flexionam em gênero, enfrentando essa tradição que não quis ver nem deixar que fosse vista uma realidade tão perfeitamente coberta que poucos se deram conta de tamanha inadequação.

[11] Talvez fosse melhor partir da teoria do Prof. John W. Martin (2000) para evitar o que o Prof. José Lemos Monteiro disse sobre a coerência e a simplicidade comoprincípios que devem nortear uma boa descrição”.

[12] O autor exemplifica e argumenta com adjetivos para defender sua tese, proposta para qualquer determinante nominal.