A nomeação do sujeito no discurso acadêmico

Tania Regina Taschetto (UFSM)

 

O sujeito do discurso da ciência está apagado nela, isto é, está presente por sua ausência. (PÊCHEUX, 1975)

 

O texto de caráter científico costuma ser entendido como um texto sem permissão de uso de recursos tanto argumentativos/ persuasivos como de retórica/estilo. Deve ser um texto fechado, seguindo normas preestabelecidas, acordadas na e pela comunidade científica, sob pena de (n)dela ver-se excluído. Um ritual que determina propriedades singulares e papéis estabelecidos a priori para os sujeitos. O pesquisador, enquanto autor de um texto que se pretende científico, deve estar completamente ausente como sujeito produtor de seu discurso.

A visão de imparcialidade imputada à ciência é transposta para o texto que se propõe a relatar a experiência científica, através de estratégias formais capazes de causar essa mesma ilusão de imparcialidade, de objetividade. Há uma retórica característica de todos os discursos institucionais, qual seja a de tentar apagar outras vozes para fazer soar apenas a voz autorizada, numa ilusão de monofonia.

No discurso acadêmico, as portas parecem estar abertas àqueles que têm alguma experiência em pesquisa. Estes podem nomear-se eu. Aos demais, seu acesso à Academia fica sujeito às normas de nomeação instituídas a priori. Assim, os procedimentos de exclusão do círculo acadêmico são colocados sutilmente: há interdição, principalmente do modo como alguma coisa pode/deve ser dita no momento em que não é permitido a qualquer um dizer qualquer coisa. Isto fica evidente na forma como o sujeito busca sua nomeação, apoiando-se no instituído para entrar nesta ordem do discurso: ou satisfaz as exigências ou qualifica-se para rejeitá-la (FOUCAULT, 1971).

Como escapar às sanções? Como resistir?

As sanções, na verdade, podem ser utilizadas como metáfora da estrutura que rege o acesso à ocupação de certas posições no discurso científico, determinando a forma de recepção: produzir um discurso científico significa ser reconhecido como um discurso científico. A linguagem representa tal autoridade, manifestando-a e simbolizando-a.

Apresentaremos um recorte de um estudo mais amplo, avaliando alguns atos de nomeação, nos colocando em proximidade às teorias lingüísticas mais contemporâneas que contestam a unicidade do sujeito, dono e senhor de seu discurso, apontando para um sujeito duplo ou múltiplo, que coloca junto à sua voz a voz de sujeitos outros, desfazendo a idéia de que o discurso acadêmico é fechado, argumentando em favor de seu caráter dialógico.

A partir das análises, podemos perceber a alteridade do discurso acadêmico, com um sujeito que busca ser homogêneo, nomeando-se através dos recursos lingüísticos disponibilizados por um aparelho formal de enunciação – a língua, mas que não consegue esconder sua heterogeneidade.

 

A Academia como instância discursiva

A Academia não é uma entidade concreta que se pode derrubar com um golpe; é uma entidade que se reveste de poder e, como tal, engendra relações que institucionalizam seu discurso de autoridade. Isto não significa dizer, porém, que exerce um poder que nega o livre acesso. A comunidade científica revela-se como um pequeno mundo bem estruturado, “uma confraria onde os indivíduos se reconhecem como membros de um mesmo grupo” (FOUREZ, 1995: 93).

No dizer de Kuhn (1997: 219), “comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma” e é este paradigma que une os cientistas em torno de uma comunidade e que dita as regras, determinando um referencial comum. Aqueles que são aceitos como cientistas são considerados como possuidores de conhecimentos específicos, úteis e passíveis de reprodução.

O método de produção da ciência passa, portanto, por processos sociais, determinados pelas organizações sociais, às quais se alia, e pelas estruturas econômicas necessárias a seu funcionamento. A atividade científica é uma atividade coletiva, que produz suas normas, seus enunciados, os instrumentos que respondem a seus problemas. A Academia não é, portanto, “um grupo neutro e desinteressado” (FOUREZ,1995: 99), mesmo que a satisfação da ciência enquanto tal, não enquanto conhecimento aplicado, seja antes compreender e explicar, “e de modo algum agir” (GRANGER, 1994: 47). Porém, como diz Bakhtin (1997: 338), “a explicação implica uma única consciência, um único sujeito; a compreensão implica duas consciências, dois sujeitos”. A compreensão sempre é, em certa medida, dialógica.

 

O lugar da norma no discurso acadêmico

A análise do deslocamento das modalidades de funcionamento da norma de objetividade no discurso científico contribui para a compreensão do efeito subjetivo e ideológico pelo qual, sublinha Pêcheux (1975), o sujeito tem a ilusão de estar na origem de suas próprias palavras ou de seu discurso. A ideologia, insidiosamente presente na língua e na linguagem, conduz naturalmente à seguinte ficção: “o sujeito pode usar a linguagem como bem entende” (HAROCHE, 1992: 71). É certo que o sujeito não pode usar a linguagem como bem entende, assim como não é a fonte/origem de seu próprio discurso. Existe, sempre, o já-dito que é reapreendido a cada instância enunciativa, uma sujeição a algo instituído que o submete à aceitação.

O discurso da ciência, mesmo que reivindique a objetividade, a neutralidade e a monotonia[1], pode ser avaliado como qualquer outra retórica: há um discurso do outro dissimulado no do eu. Não como reivindicar um distanciamento absoluto, porque o discurso se constrói na mesma medida em que o sujeito se constrói, atualizando a língua neste processo de construção.

A noção de norma é associada à de gramática, bem como à de instituição por um determinado grupo, que pode ser tanto social, cultural, lingüístico como também ideológico. E as próprias leis de formação do grupo funcionam como uma espécie de censura prévia. Tais regras podem ser tanto de natureza lingüística como também de natureza sócio-cultural. Portanto, o sujeito que deseja inscrever-se numa dada instância enunciativa deve saber atravessar o confronto entre os dois discursos. Acreditamos na idéia de que o sujeito usa os recursos lingüísticos autorizados pela Academia, para inscrever-se e ser aceito, no exato confronto entre os dois discursos.

Reconhecendo-se que o desejo do sujeito não pode emergir senão em uma “falta de ser” (ou ainda de “dizer”) e que, inversamente, o Estado se define pela imposição da linearidade, do explícito de suas leis, a censura, a interdição de exprimir, assim como a exigência de dizer tudo podem ser entendidas como formas de submissão do sujeito ao Estado. No entanto, é nas falhas do bem-dizer que o sujeito se mostra para afirmar-se como um (AUTHIER-REVUZ, 1998). Então, é usando o Estado, que no discurso acadêmico é representado pela comunidade científica, através das suas formas do bem-dizer, que o sujeito se afirma um: a asserção do outro como possibilidade de garantia da credibilidade de sua própria asserção.

Nesse discurso, a objetividade equivaleria a um certo comportamento do enunciador que se apaga o mais possível na trama enunciativa, na tentativa de melhor descrever e mais rapidamente atingir a verdade científica. Assim, o enunciador vale-se de um recurso argumentativo a favor de um desejo de imparcialidade. (CORACINI, 1991). Com tal recurso, o sujeito-enunciador expressa sua subjetividade, assumida com maior ou menor força, ora comprometendo-se, ora afastando-se.

Com isto, o que se percebe é que o discurso científico não é plano, não é fechado. O sujeito do discurso científico é um sujeito que ocupa um espaço destinado a tomadas de posições, mesmo que sub-repticiamente. É um sujeito que exerce a função de articular e dar coerência ao seu discurso, posicionando-se no discurso da ciência.

Assim é no discurso acadêmico: um sujeito dividido entre a norma e o seu desvio; entre a linguagem objetiva e a linguagem subjetiva; ora escondendo-se ora desvelando-se sob diferentes formas de nomeação.

Da análise

Nossa proposta é analisar a nomeação do sujeito no texto acadêmico, através de alguns recursos lingüísticos e discursivos que utiliza para dialogar com a norma instituída pela Academia, para nela ser aceito e dela fazer parte.

Levantamos a hipótese de que o sujeito se apresenta com a perspectiva de inserir-se no círculo acadêmico, com a firme intenção de ser aceito, mantendo ou alterando a hierarquização das relações que se estabelecem entre o sujeito eu e o círculo acadêmico, representado pelos pesquisadores, aceitos no grupo, que emprestam suas vozes para que o sujeito alie-se a eles numa espécie de diálogo.

A relação dialógica se estabelece na medida em que o sujeito nomeia-se eu alternando o outro, deixando marcas presentes no uso de recursos lingüísticos, que podemos considerar como manobras discursivas, com a intenção de deslocar-se do centro do discurso, ocasionando um deslizamento no ato de nomeação. Os efeitos desse recurso incidem sobre a orientação da enunciação, o que leva a crer que as manobras discursivas são intencionais; ou seja, o sujeito alia-se ao outro, o que sugere uma relação de submissão velada. A aparente submissão, ou seja a ausência ou o afastamento do sujeito, revela ainda mais a sua presença.

 

(a) Um sujeito que ousa: nomeação com eu

Nos enunciados aqui recortados, o que temos é um sujeito que se apresenta à Academia de forma clara e explícita, nomeando-se em primeira pessoa. Esta forma de nomeação ocorre quando o sujeito fala de sua trajetória pessoal, ao introduzir seu tema de pesquisa. Isto ocorre porque o sujeito acredita que sua experiência pode colocá-lo como pesquisador frente ao outro do círculo acadêmico.

(1) ... No curso de graduação ... busquei[2] ... realizar um estudo ... para minha formação ... Dessa forma ... analisei o funcionamento discursivo ... Através da análise ... pude verificar que ... Em função disso, mostra-se pertinente analisarmos traços discursivos [nova pesquisa] (S1)

(2) ... Sendo integrante do GM [Grupo Multidisciplinar][3] ... um questionamento era recorrente ... o meu trabalho no GM ... fez-me aprofundar as discussões ... Esses questionamentos despertaram o interesse em investigar ... uma vez que minha experiência no GM oportunizou-me o estudo ... Essas questões me instigam a projetar um trabalho de pesquisa ... [nova pesquisa] (S2)

Nos exemplos (1) e (2) os sujeitos sustentam sua nomeação na pesquisa efetuada no curso de graduação ou como suporte para apresentar nova pesquisa.

Nas suas enunciações, então, o sujeito busca sua nomeação sustentado na sua prática. Parece que o fato de haver uma experiência de pesquisa anterior o faz pensar que é acolhido como membro da Academia, o que nos leva a admitir com Benveniste (1966) que o sujeito eu se constitui em presença do tu – o sujeito da Academia. Do ponto de vista de Bakhtin (1999), o sujeito toma a forma verbal eu a partir do ponto de vista do outro e, em definitivo, do ponto de vista da comunidade a que pertence, numa interação que o constitui, não sendo, então, concebido fora das relações que o ligam ao outro. Assim, o sujeito ao nomear-se eu, o faz porque considera a comunidade acadêmica como seus pares.

 

(b) Um sujeito velado:
nomeação
com sujeito não-pessoa – ele/o objeto de estudo

A ausência explícita do sujeito-enunciador manifesta-se como uma estratégia de transformar o objeto em sujeito do enunciado. É o que aponta Benveniste (1966) ao tratar do sujeito não-pessoa: “não importa quem ou não importa o que, exceto a própria instância enunciativa” (p. 282).

A nomeação que privilegia o sujeito não-pessoa é usada como recurso, que coloca em evidência o objeto de estudo, confirmando o contrato convencionalmente aceito entre as partes: a comunidade científica serve-se dos conhecimentos divulgados, não importando quem os produz. Entretanto, o sujeito não se apaga totalmente, apenas esconde-se nessa objetividade aparente. Ou seja, deixa de serum sujeito-para-si para ser um sujeito-para-os-outros” (SANTOS, 1989: 14). Com isto, pensa anular-se, ou eximir-se de responsabilidade frente ao que está posto.

(3) .... O presente projeto de pesquisa pretende analisar ... Tal proposta parece-nos pertinente ... Nossa proposta de análise parte da tentativa de verificar ... Tal estudo está embasado no fato de se tratarem de estatutos diferentes ... a pesquisa centrar-se-á ... Tal procedimento parece-nos pertinente pois é nele que ... (S9)

É interessante notar no recorte (3) que o sujeito (S9), ao usar o sujeito não-pessoa (Benveniste, 1966), credita objetividade ao seu discurso, deixando seu objeto de estudo enunciar-se como se tivesse vida própria: é o enunciado que diz o fato e não o sujeito-enunciador.

 

(c) Um sujeito que persuade: nomeação com modalizadores

O uso de modalizadores é característica de todo discurso que quer isentar-se de responsabilidade, de não impor um padrão ou um determinado comportamento. Portanto, no discurso acadêmico, este é um recurso bastante recomendado: é característico da norma científica não apresentar as verdades como inquestionáveis, os resultados como incomparáveis, a teoria como insubstituível. Neste descomprometimento, concordamos com Coracini (1991) que diz que o sujeito deixa espaço para outras pesquisas que possam contradizer ou completar a sua. Este recurso tem um duplo papel no discurso acadêmico: convencer, pelas afirmações, da verdade que está sendo enunciada; e camuflar a origem enunciativa.

É possível avaliar um discurso por autoridade no uso reduzido de expressões modais, o que caracteriza um aumento do engajamento do sujeito. Por outro lado, o uso de modalizadores se configura como um recurso de alto valor argumentativo, uma vez que persuadir é além de convencer-se de alguma coisa, também convencer, induzir, levar alguém a crer ou a aceitar alguma coisa, um argumento[4].

 

(c1) Modalizadores de autoridade

Sabe-se que a autoridade se estabelece tanto a partir do reconhecimento de uma prática construída historicamente, como também por um ato de investidura no exercício do poder institucionalizado. O poder de/por autoridade propicia a quem o detém disciplinar o comportamento dos indivíduos a ele submetidos. Assim, toda vez que alguém produz um comportamento destinado a modificar ou reforçar a disposição de um sujeito com vistas a uma tese ou conclusão exerce um ato de autoridade por argumentação. Os meios ou instrumentos que o sujeito utiliza para tal ato, constituem-se em argumentos para construir sua tese. Nos exemplos do nosso corpus, o sujeito tem por objetivo influir na disposição dos membros do círculo acadêmico para aceitar e autorizar seu estudo/pesquisa, e nesta relação entre o eu e o tu, o sujeito tenta trazer o outro para si.

(4) ... É necessário salientar aqui ... É necessário, então, que se incentivem os estudos ... Para o êxito deste trabalho, é pertinente lembrar que ... Então, é necessário lançar mão de ... (S5)

No dizer do sujeito (S4), configura-se um discurso preocupado em mostrar a relevância do estudo/pesquisa, sem, contudo, apelar para a autoridade da última palavra. Ou seja, ao convencer-se de que “é importante”, “é necessário”, a sua execução, o sujeito tenta convencer seu interlocutor – o outro da Academia, entretanto, sem imposições. Agindo assim, o sujeito deixa espaço para o interlocutor pronunciar-se, numa atitude eticamente oportuna. Parece contraditório dizermos que o sujeito persuade seu interlocutor ao mesmo tempo que deixa espaço para que este mesmo interlocutor se pronuncie. Porém, o espaço que o sujeito deixa em aberto para que seu interlocutor se sinta chamado é para ser ocupado em seu próprio benefício, legitimando o seu discurso e sua presença no círculo. Portanto, uma manobra discursiva com alto grau de persuasão.

 

(c2) Formas do bem dizer

No dizer dos sujeitos do nosso corpus, observamos os modalizadores de autoridade usados numa sintaxe diferente da usual, qual seja a de verbo ser + modalizador. O uso aqui encontrado parece impor uma relação de condição entre intencionalidade e auto-retificação do dizer: é enquanto correspondendo a um querer dizer que o dizer seria considerado como bem dizer; isto é, as formas de dizer do bem dizer (conforme AUTHIER-REVUZ, 1998: 74).

O sujeito parece querer mostrar-se; mas, por pensar que ainda não pode, ou não deve, retifica seu dizer - antes mesmo de enunciá-lo - e modaliza sua intenção de impor seu discurso, como em “faz-se necessário ou “parece-nos pertinente”, no exemplo (5). Isto significa que o dizer do sujeito aponta para uma atitude de adesão ao seu enunciado, mas, paradoxalmente, atenua esta sua atitude ao modalizar seu enunciado com um sentido a mais. Ou seja, após a ocorrência do dizer, o sujeito ajusta sua nomeação na instância do dever dizer. Isto sugere um engajamento menor do que o obtido com o uso dos modalizadores de autoridade, analisados em (C1).

Vale dizer que, sintaticamente, este uso não se sustenta, embora possamos admiti-lo na medida em que assumimos, com Benveniste (1966), que o sujeito atualiza a língua no exercício do seu discurso. É necessário dizer, também, que o sujeito modaliza porque é ensinado para tal, ou seja, no discurso acadêmico a linguagem não deve ser de autoridade, para quem ainda não está nela investido, nem autoritária. Neste caso específico, podemos avaliar que o sujeito pecou por excesso de zelo à norma: modalizou o modalizador.

(5) ... Cumpre-nos salientar que ... faz-se necessário, para a compreensão do universo ... Tal procedimento parece-nos pertinente, pois é nele que se estabelece a relação ... (S9)

(6) ... Ao se constatar a existência de lacunas ... impõe-se a necessidade de supri-las. Para que isso aconteça, torna-se importante um estudo ... (S3)

Então, vejamos, comparando os exemplos (5) e (6) com o exemplo (4), temos um sujeito que, além de não dizer sua palavra como a última, ainda modaliza este seu dizer. Este caso parece assemelhar-se à pessoa transbordada na taxionomia de Fiorin (1996) que avalia neste usoque o sonho positivista do apagamento total da enunciação, com a construção do enunciado puro, é uma ilusão” (p. 102). Nos casos levantados por Fiorin, existe um enunciado onde não parecem haver actantes da enunciação; portanto, a instância enunciativa transborda instalando o eu e o tu como complementos dativos. Então, quando os descendentes de italiano excedem no uso de dativos éticos em sua fala: “Pina, o Angelim me veio ontem cedo, me tocou sanfona, me bebeu, me riu. me foi embora depois da meia-noite. Quando me ia saindo, quase me caiu na porta”, “a enunciação mostra-se em todo seu esplendor” (FIORIN, 1996: 102). Nos nossos exemplos, há um transbordamento no uso da norma e, se o sujeito modaliza o modalizador, é porque estaria junto, nesse excesso, o seu interlocutor – o eu e o outro da Academia.

 

Concluindo

Como vimos, as análises mostram um sujeito múltiplo. O sujeito do discurso acadêmico é um sujeito que (a) ousa, nomeando-se eu; (b) vela-se, transformando-se num sujeito-para-os-objetos; (c) persuade seu interlocutor buscando seu envolvimento, modalizando seu discurso com a intenção de legitimá-lo.

Os sujeitos são capazes de mostrar sua presença usando apenas os recursos que a Academia avaliza. Ou seja, estão presentes mesmo quando não se nomeiam eu.

Esse procedimento heterogêneo em relação aos elementos do sistema lingüístico, que servem de base material para a produção de seu discurso, faz parecer que o sujeito se serve da língua para expressar suas intenções subjetivas. Há marcas lingüísticas que atestam a inscrição do sujeito num dado lugar discursivo. Esse lugar discursivo é determinado historicamente pela sociedade que o acolhe em sua estrutura. Portanto, não existe o medo da exclusão; o que há é uma submissão a um acordo, previamente estabelecido, que regula o acesso e a permanência dos membros nessa estrutura.

marcas de autoridade: mesmo seguindo a regra sintática, o sujeito busca a discursividade através dos modalizadores de autoridade pertinente, é necessário]; é a voz do eu que aparece por baixo da marca lingüística.

O sujeito não pode nomear-se como eu, isto é, estar presente, explicitamente, em demasia. Eu presente demais significa não solicitar acesso à Academia, significa já-estar-lá, o que pode acarretar um jogo de vaidades. Na Academia, parece estar em jogo uma espécie de monopólio da autoridade científica[5], que legitima o falar e o agir.

O sujeito, como aponta Authier-Revuz (1998), além de usar as palavras da língua, ocupa o lugar de observador dessas mesmas palavras e seu discurso recebe um outro estatuto, qual seja, o do discurso-outro. Não raras vezes, o discurso-outro se manifesta sem o auxílio do dito; ou seja, mesmo nomeando-se na norma, o sujeito está em evidência. É o duplo dialogismo, não no sentido plural, mas no sentido de interdependência do discurso com os outros discursos.

É como na metáfora do espelho ou do vidro transparente[6] usada para explicar o signo eu representando uma coisa e sendo a coisa representada: eu dá a ver outra coisa que não ele mesmo. Porém, tanto o espelho como o vidro transparente têm a propriedade de se opacificar: podem usar de se esconder para, ao contrário, se oferecer à consideração, ao olhar do outro. O sujeito mira-se na Academia, como num espelho, para ser aceito. Quando o sujeito nomeia-se como eu, torna-se opaco: cessa de desviar o olhar de si mesmo e se apresenta à Academia [Sou membro do círculo!]. Nesse momento, ele perde a transparência que permitia ver o objeto através dele mesmo.

A subjetividade que insiste em se fazer presente na construção do sujeito na produção de seu discurso é cerceada pela necessidade de fazer aparecer a norma que, por vezes é condescendente e permite ao sujeito nomear-se, por vezes seu rigor o domina. É uma alteridade que se investe de outra. É uma heterogeneidade que se projeta de outra. É uma subjetividade que se mostra a partir de outra, em condições distintas. É uma questão de identidade e de diferença: a diferença se mostra no igual que o identifica como igual. É na diferença que a alteridade se faz identidade.

 


 

Referências Bibliográficas

AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não-coincidências do dizer. São Paulo: UNICAMP, 1998.

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 9ª ed. São Paulo: Hucitec, 1999. (Coleção Linguagem e Cultura 3).

––––––. Estética da criação verbal. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. (Coleção Ensino Superior).

BENVENISTE, E. Problemas de lingüística geral I. 4ª ed. São Paulo: Pontes; Campinas: UNICAMP, 1995.

CORACINI, M. J. F. R. Um fazer pesuasivo: o discurso subjetivo da ciência. São Paulo: EDUC; Campinas: Pontes, 1991.

FIORIN, J. L. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo: Ática, 1996.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1998.

FOUREZ, G. A construção das ciências: introdução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: UNESP, 1995.

GRANGER, G.-G. A ciência e as ciências. São Paulo: UNESP, 1994.

HAROCHE, C. Fazer dizer, querer dizer. São Paulo: HUCITEC, 1992. (Linguagem e Cultura 20).

KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1997. (edição com posfácio).

MAINGUENEAU, D. Novas tendências em análise do discurso. 3ª ed. Campinas: Pontes, 1997.

PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 2ª ed. Campinas: UNICAMP, 1995. Tradução de: Les vérités de la Palice.

RÉCANATI, F. La transparence et l’énonciation: pour introduire à la pragmatique. Paris: Seuil, 1979.

SANTOS, B. de S. Introdução a uma ciência pós-moderna. 4ª ed. Porto: Afrontamento, 1995.


 


 

[1] Monótono no sentido de um tom; uniforme (Novo Dicionário Aurélio, 1986).

[2] O negrito é o recurso utilizado para destacar as situações que estão sob análise.

[3] Todo e qualquer termo ou expressão entre colchetes refere-se a inserções nossas.

[4] Conforme definição encontrada no Novo Dicionário Aurélio (1986).

[5] Expressão usada por Bourdieu em “Le champ scientifique” (1976), citado por Maingueneau (1997: 57).

[6] Ver em Récanati, 1979