LUGARES/ VALORES ARGUMENTATIVO
(
EM RELATOS JORNALÍSTICOS)

Sigrid Gavazzi (UFF e CIAD)

 

PRELIMINARES

Este trabalho objetiva detectar individualmenteou em seu intercâmbio – os lugares/valores argumentativos mais utilizados em determinado relato jornalístico[1].

Tais lugares/valores configuram, a nosso ver, uma das marcas enunciativas utilizadas pelos sujeitos (comunicante e enunciador) na confecção de seu texto, que sustentam a argumentatividade subjacente ao corpo da narrativa.

Como intenção segunda, pretende-se oferecer (por uma ótica diversa da habitualmente encontrada nos manuais didáticos) subsídios teórico-metodológicos ao professor atuante em sala de aula, com o uso efetivo de análise textual-discursiva, preconizada pelos PCNs – inclusive no campo da argumentação.

 

INTRODUÇÃO

O relato jornalístico que respalda este estudo é o Capítulo I, da obra Hiroshima, de John Hersey (cf. bibliog.) As condições de produção deste texto são dignas de nota.

Hiroshima é um exemplo de que ninguém, nem mesmo John Hersey, faz jornalismo sozinho. Ele teve dois cúmplices editoriais: Harold Ross (...) e William Shawn, o editor que trabalhou por 55 anos na revista que passou a ter a reputação de publicar os melhores textos que a imprensa teve (p. 162).

O editor, à épocaum ano após a explosão da Bomba H – decidiu contar aos americanos o que eles não sabiam : o que ocorrera, de fato, em Hiroshima após a explosão. Contratou um jornalista (que cobria ações de guerra no Oriente) e este passou seis semanas no Japão, escrevendo a reportagem. Entretanto, Hersey sabia que sua matéria não sairia “ilesa”: “... os editores da revista (...) reescreveriam todos os textos – e , para muitos, residiria o segredo da qualidade da publicação” (p. 164).

Este pequeno histórico prova que “ ... toda fala procede de um enunciador, pois, mesmo quando escrito, um texto é sustentado por uma voz – a do sujeito situado para além do texto (Maingueneau, 2001: 97).

Daí, a voz que está por trás desta matéria é a de jornalistas / editores compromissados com a sociedade americana e, sobretudo, com aquela faixa que se considerava democrata – virtualmente, naquele momento, contrária ao uso da bomba, em posição oposta a dos republicanos.

Por hipótese, o fato de Hiroshima constituir um relato – cujo ponto de partida são as histórias vivenciadas pelos sobreviventes – constitui uma antevisão da voz enunciativa, pois a própria escolha de ouvir as vítimas atribui-lhes credibilidade: suas palavras e seus dramas por certo emocionariam os americanos[2].

Logo, a reescritura de seus depoimentos leva a uma inevitável mediação entre os enunciadores e seu público. Assim, se temos um texto como produto, o próprio ato de produção projeta-se no enunciado (Benveniste, 1989: 79).

Tal produção/mediação pode ser avaliada por diversos mecanimos. Os que selecionamos, para o estudo em pauta, foram os lugares / valores priorizados na matéria.


 

TRABALHANDO A ARGUMENTATIVIDADE
EM NARRATIVA JORNALÍSTICA

Falar sobre argumentação/argumentatividade, recai, necessariamente, no campo da adesão e do convencimento do ouvinte ou, antes, sabe-se que, por meio do discurso, pretende o escritor obter “ ...uma ação eficaz sobre os espíritos (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 2002: 10), convencendo-o, persuadindo-o.

Para isso, levará em conta, como componente primeiro de seu fazer textual, o status do auditório (leitores) a quem se dirigirá. Acordos (ou pré-acordos) são estabelecidos, mediados pelos valores respeitados por esse auditório e sua respectiva hierarquia.

Hiroshima foi publicado em 1946, em edição única Seu público primeiro era restrito a uma elite, mas a repercussão da obra alcançou um auditório bem mais universal.

Assim, tendo por base fatos, entrevistas, relatos[3], o autor/enunciador[4], com mais liberdade de expressão que a que teria em uma reportagem habitual, imprime à matéria seu estilo. Desta forma, seu impacto na época deveu-se muito à abordagem realizada, pois, naquele momento, os americanos – e o resto do mundo – tiveram acesso ao que acontecera. Com a edição, “o horror tinha nome, idade e sexo bem como o tom da matéria constituiria um prolongamento da dor silenciosa que os sobreviventes de Hiroshima notaram nos contemporâneos feridos”. (p. 168)

O apregoado “tom” de que se fala resultaria - entre outros fatores – do jogo de lugares/valores argumentativos utilizados, deixando-se de lado, nesta análise, a tradicional “estrutura argumentativa clássicatese/asserções de passagem/conclusão).

É o que passaremos a analisar.


 

ABORDANDO LUGARES E VALORES

Segundo Perelman & Olbrechts-Tyteca (2002: 74)[5], qualquer questão pode ser discutida sob o crivo de duas categorias : a primeira refere-se a fatos, verdades e presunções (relativa ao real/ o que se comprova e não se discute, o verdadeiro), enquanto a segunda se ocupa de valores e sua respectiva hierarquia (relativa ao preferível/ o que se considera de acordo com determinada ótica, o verossímel.

Ora, o sujeito do discurso relata o que ouviu sob seu ponto de vista. Seleciona as informações, releva alguns pontos, despreza outros. Assim, sua valoração sobre os fatos vai irremediavelmente sendo tecida, linha por linhaverdadeiro e verossímel se confundem e se completam.

A verdade, de fato, é indiscutível, inclusive a que serve de infra-estrutura do texto em pauta : a Bomba H em Hiroshima. O que se discute, na verdade, é como essa verdade (e suas conseqüências) foi ressignificada pelos que agora falam (e pelos que agora a redigem). Emergem, então, os lugares/valores argumentativos : COMO se conta sobrepõe-se ao QUE ocorreu.

Por valores, entendemos, então, crenças que a) dependem de circunstâncias, meio social, tempo e espaço; b) são do conhecimento de todos os elementos de determinada comunidade e c) se assentam em premissas de ordem geral, os “lugares” (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 2002: 95).

Seis são os principais e sobre eles, resumidamente, discorremos.[6]

Assim, para o lugar da QUANTIDADE, afirma-se que algo é melhor que o outro por razões quantitativas.

O autor (...) precisou de 31.347 palavras para explicar como uma única explosão matou 100 mil pessoas, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da humanidade (p.161)

Daí a preferência pelo provável sobre o improvável, pelo fácil sobre o difícil, pelo que se apresenta mais amiúde, pelo normal e pelo habitual.

... o prédio abrigava trinta quartos para trinta pacientes e seus familiares pois, de acordo com um costume japonês, quando alguém adoece e baixa um hospital, um ou mais parentes devem acompanhá-lo, para massageá-lo e confortá-lo (p. 15)

o lugar de QUALIDADE opõe-se ao anterior. Contesta visceralmente a virtude do número. Observe-se o exemplo que se segue:

Quando alcançaram o vale (...) ouviram o sinal de que não havia mais perigo (detectando apenas três aviões, os operadores de radar japoneses deduziram que se tratava de uma missão de reconhecimento) (p. 11)[7]

Este lugar valoriza, pois, o raro, o único, o original, o precário (tudo que está ameaçado ganha um valor eminente) e seu exponencial, o irremediávelpor piores que os dois últimos podem ser.

Uma terrível confusão se instalara no hospital : pesadas divisórias e tetos despencaram sobre numerosos doentes, camas viraram, janelas se espatifaram e cortaram diversas pessoas; havia sangue nas paredes e no chão, instrumentos esparramados por todos os lados, vários pacientes correndo e gritando, e muitos mortos (...) fora, cidadãos mutilados e moribundos dirigiam-se tropegamente para o hospital da Cruz Vermelha. (p. 20-1)

O lugar da ORDEM, a seu turno, valoriza o anterior (sobre o posterior), além de levar em conta a causa, o princípio, a finalidade, o objetivo. Observe-se o fragmento a seguir, na oposição do tempo presente ao passado. Neste último, os sobreviventes relatam as possíveis razões de terem superado o poder mortal da bomba, mas não sabiam à época, realmente, o que acontecera no momento. A ignorância de então contribuíra para sua sobrevivência e deu-lhes resistência necessária nos meses subseqüentes, que não podiam antever o futuro.

Agora cada uma delas sabe que, no ato de sobreviver, viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso. (p. 8)

Para a ESSÊNCIA, reserva-se a valoração de determinado indivíduo, representante de um ideal social, com função determinada. É o caso do médico da Cruz Vermelha:

Era bastante idealista e se angustiava com a precariedade dos serviços médicos na cidade de sua mãe. Por sua conta e sem a devida licença passara a visitar alguns doentes (...) à noite, depois de cumprir seu expediente de oito horas no hospital e de viajar por quatro horas. Descobrira recentemente que a punição para quem clinicava sem licença era rigorosa (...) No entanto, continuava a clinicar. (p. 19)

Para o lugar de PESSOA, potencializa-se tudo o que seja ligado à dignidade, ao mérito e à autonomia do ser humano. Bom exemplo é o da costureira, pobre e viúva.

A sra. Nakamura voltou para a cozinha, examinou o arroz e se pôs a observar o vizinho. A princípio se aborreceu com o barulho, mas depois se comoveu a tal ponto que quase chorou. Sentiu pena do homem que estava derrubando a casa[8], tabua por tábua, numa época em que havia por toda a parte tanta destruição inevitável; sentiu também uma pena generalizada comunitária, para não falar também na pena de si mesma. (p. 14)

O lugar do EXISTENTE, finalmente, maximiza o que existe, o que seja real. O nervosismo da populaçãotextualmente expresso – configura um exemplo deste lugar

A freqüência dos alarmes e a constante abstinência do Sr B[9] com relação a Hiroshima tinham deixado a população extremamente tensa : corriam boatos de que os americanos preparavam algo especial para a cidade. (p. 9)

 

UM CLARÃO SILENCIOSO

Valores e personagens

O primeiro capítulo, componente do texto integral, relata as horas (singulares) que anteceram um momento igualmente ímpar: a explosão da Bomba H, no conjunto de ilhas denominado Hiroshima. Daí, pelo próprio temário, o lugar de QUALIDADE prevalece sobre todos os demais.

Poucos são os sobreviventes e o autor destaca seis, apenas eles, para a composição do relato. Assim, são considerados “especiaisnão (mas sobretudo) pela simples questão de terem vencido o horror da explosão e a morte (quase) certa, porque “ ... uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica e essas seis são algumas que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivos, quando tantos morreram” (p. 8)

A qualidade se insurge também quando todos eles estavam “fora” de seus horários típicos – a habitualidade havia sido rompida e, talvez por questões de horário ou lugar, não seguiram o caminho dos demais, marcados fatalmente pela tragédia.

Mais tarde calculou que, se tivesse viajado no horário de costume e se tivesse esperado o bonde por alguns minutos, como acontecia com freqüência, estaria perto do centro no momento da explosão e certamente teria morrido (p. 20)

É a qualidade que também tipifica os personagenspositivamente em cinco dos seis casos – e, nessa tipificação, o juízo de valor do cronista aparece de forma mais explícita.

/Sr. Tanimoto/ “ ... era um homem baixinho, sempre disposto a conversar, rir e chorar (...) Havia em seus movimentos nervosos e rápidos um controle que sugeria cautela e ponderação. E essas qualidades ele as demonstrou nos dias de apreensão que precederam o lançamento da bomba (p.9).

Nos dias imediatamente anteriores à explosão, o próspero, hedonista e então pouco ocupado Dr. Masakazu Fujii se dera ao luxo de dormir até as nove ou nove e meia (...) Aos cinqüenta anos, era sadio, sociável e calmo e, à noite, gostava de tomar uísque com os amigos (...)

Somente uma das personagens é singularizada pelos seus atos (a Sr. Nakamura). Dela o autor relata que, viúva e pobre, “ ...costumava fazer o que lhe mandassem” , sustentara “.... seus filhos costurando (em uma velha) máquina(p. 13) . Assumia atitudes similares a outras pessoas que consultavam aqueles a que a sociedade atribuía credibilidade e poder (“... acatou o conselho”). Então, poderia ser incluída no valor quantitativo, pelas atitudes esperadas e habituais. No entanto, salva a sua vida – e a de sua prolecom uma desobediência civil.

Ao ver as crianças tão cansadas, ao pensar no número de caminhadas inúteis que haviam feito até a Praça de Armas Leste[10], nas últimas semanas, ela resolveu não seguir as instruções do locutor. (p.13)

 

Valores e a estrutura narrativa

Os lugares, a nosso ver, também auxiliam na própria estruturação narrativa e em sua (necessária) seqüencialidade.

Pode ser dividida em dois segmentos distintos.

O primeiro funciona como um verdadeiro cenário para o exato momento que antecede a explosão – e nele os seis personagens se “acomodam” em seus lugares e iniciam alguma função – uma espécie de “compasso de espera finalpara a inevitável catástrofe : a secretária “... acabara de sentar-se; o médico abastado “... acomodava-se para ler o jornal”; a costureira viúva “...observava pela janela um vizinho ; o padre “ ...lia a revista da Companhia de Jesus; o médico novato “...caminhava por um dos corredores do hospital e, finalmente, o reverendo “ ... descarregava um carrinho de mão[11]”.

Neste segmento, predomina o valor do EXISTENTE, manifesto pelas ações/atitudes dos personagens (que corresponderia à harmonia, etapa inicial das narrativas), respondendo à pergunta: “o que faziam eles minutos antes da explosão ?”.[12].

No entanto, faz-se importante ressaltar que, como a reportagem se justifica por um fato, é ele quem assoma logo na primeira linha do texto. Assim, pela ORDEM chega-se, novamente, ao predomínio da QUALIDADE - o acontecimento em pauta funciona como umgatilhopara todo o discurso subseqüente.[13]

O segundo segmento, por sua vez, conta resumidamente a história” de cada um delesafinal, personagens têm de ser conhecidos e (re)conhecidos pelos leitores/auditório. Neste momento, o cenário passa a agir, de fato, personificado em seis pessoas, cada um deles com seus medos e anseios (advindos da expectativa de bombardeios).

A seguir, relata-se o que estavam fazendo, sua reação diante do primeiro sinal de alerta, sua posterior tranqüilidade (considerando que o sinal cessara) e, finalmente, o advento da explosão – nesta ORDEM[14]. Observe-se:

... acordou às 5 horas da manhã (...)/Na noite anterior, havia dormido mal (...) Terrivelmente cansado, preparou o café (...)/Pouco depois o alarme antiaéreo soou por um minuto (...)/Parou para descansar um pouco (...)/Então um imenso clarão cortou o céu

... acordou por volta das seis/ meia hora depois estava meio lerdo, por causa da condição física- começou a rezar (....)/No final da missa (...) a sirene soou (...)/subiu para o terceiro andar (...) para ler a Stimmen der Zeit (...)/Ao ver o imenso clarão teve tempo apenas para um único pensamento.[15]

Quando a explosão ocorre – clímax da narrativa – contraria justamente um valor comumente utilizado, o da QUANTIDADE : a probabilidade oficial não se confirma, surpreendendo a todos. Veja-se:

“... ouviram o sinal de que não havia mais perigo” X “Então um imenso clarão cortou o céu” (p. 11)

“... ouviu, aliviada, o sinal que indicava o fim do alerta” X “... um clarão de um branco intenso, que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas” (p. 13)

A negação da quantidade pode, inclusive, ser resumida no pensamento do padre alemão – “Certo de que nada haveria de acontecer, entrou novamente no prédio” (p. 18)

Além disso, a noção coletiva mais contundente – representada pelo numérico – ocorre no âmbito do prejudicial, do desastroso. E a quantidade dobra-se, também, ao valor da qualidade. Examinem-se os excertos:

A primeira coisa que viu na rua foi um pelotão de soldados que tinham estado cavando a encosta para construir um dos milhares de abrigos em que os japoneses aparentemente pretendiam resistir à invasão, montanha por montanha, vida por vida. (...) O sangue corria da cabeça, do peito e das costas. Estavam mudos e atônitos (p. 12)

Os destroços do hospital se espalharam a seu redor numa louca mistura de estilhaços de madeira e anestésicos (p. 17)

 

CONCLUSÃO

Como se constatou, a ordem movimenta o existente – seja ele o antes ou o imediatamente após a bomba. Aliás, a própria explosão nega o existente, instalando outro, inusitado para a época e que, por isso, entre outras razões, merece ser descrito/relatado.

Ora, merecimento leva à QUALIDADEvalor do inusitado e do único, que permeia toda a narrativa em questão. Portanto, o fator que afere maior TEOR DE ARGUMENTATIVIDADE à obra é justamente aquele que QUALIFICA os componentes da história : o local, a hora, os personagens e seu(s) procedimento(s) então.

Imputar-lhes relevância funciona, portanto, como um verdadeiro libelo o autor/enunciador toma claro partidocontra as armas atômicas. Assim, narrar-lhes as experiências persuade bem mais do que um tratado argumentativo em sentido clássico (do tipo : “tese, asserções de passagem e conclusão”)[16]. Um texto torna-se mais convincente (e envolvente) se a tese do autor – “arma atômica destrói tudo” - for manifesta pela voz dos que sofreram (irremediavelmente) com uma delas.

É o testemunho vivificado, então, quando a pessoa “ perdeu a noção das coisas” (p. 16), “nunca soube como saiu do prédio” (p.18) “perdeu a consciência” (p. 22) e, sobretudo, no relato de uma mãe quando

... ouviu uma das crianças gritarMamãe, socorro!” e viu a caçula Myeko, de cinco anos, enterrada até o peito e incapaz de se mexer. Enquanto abria caminho com as mãos, freneticamente, para acudir a menina, não escutou nem avistou o menor sinal dos outros filhos. (p. 14)

Aliás, os valores de PESSOA (a dignidade, a autonomia humana frente ao mundo) se diluem - “quem é quemdeixa de existir em um momento de total destruição. O ser humano nada represente frente à ciência da guerra. Veja-se o que diz o narrador:

... as estantes que estavam atrás da srta. Sasaki caíram, e seu conteúdo a derrubou, quebrando-lhe a perna esquerda. No primeiro momento da era atômica, livros imprensaram um ser humano numa fundição de estanho. (p. 22)

O mesmo se pode afirmar da ESSÊNCIAalgum japonês atingido teria tempo ou disposição, em meio ao inferno atômico vivenciado, para ideais ouvalores superiores” ? Praticamente esse é um valor apagado. E, mesmo que haja seis escolhidos, estes o foram porque sobreviveram “em razoável estado de saúde” – também um valor qualitativopor 40 anos, quando relatam ao jornalista, novamente, o que ocorrera em suas vidas, de 1945 até 1985.

Também como se verificou, o QUANTITATIVO praticamente é utilizado na narração das conseqüências desastrosas – que, evidentemente, são incontáveis.

Duas suposições inversas também poderiam ser aventadas.

A primeira seria que o quantitativopelo próprio atributo do “incontável” – seria a linha mestra da narrativa, a sua mola propulsora e o qualitativo o ratificaria com os fatos ocorridos. O número, o percentual, a fração estariam implícitos e a narrativa se proporia a ratificar as perdas, os danos, o não-quantitativo. O proposital “apagamento” dar-lhe-ia o referido estatuto.

Outra suposição também valha reflexão : como se poderia falar favoravelmente de/com números se o homem, se o ser humano constitui apenas um detalhe ? A vida humana não assume importância numérica : não importa (para os EUA ou para o mundo) quantos morreram, quantos ficaram mutilados ou seqüelados, quantos não tiveram possibilidade de sobrevida – se importassse de fato, a bomba jamais teria sido usada.

O número, então, sob esse raciocínio, é dispensável, pois o que se releva é a “qualidade” do ato, Para os aliados, o sacrifício de Hiroshima valeu a vitória na 2ª. Guerra.

O autor sabe disso e utiliza todos os valores (cada um adaptado a sua função específica) com maestria, no convencimento da sociedade americana – e mundial – do erro irreparável.

Ratifica-se também o contrato mediático (Charaudeau, 1996: 33): o jornalista passa a ser reconhecido pela sociedade americana , atribui-se-lhe pertinência intencional/redacional, validando seu projeto de fala. Hiroshima ratifica a legitimidade dos autores (editores / jornalistas) e os credibiliza – os próprios depoimentos (reescritos) ancoram os estatutos do SABER, do PODER e do SABER FAZER.

Com relação aos PCNs, cremos que nosso estudo alinha-se ao preconizado pela LDB, em seu Artigo 22 (apud PCNs, 1999):desenvolver o educando, assegurar-lhe formação indispensável para o exercício da cidadania

Logo, é por meio da leitura – respaldo conteudístico para a produção textualque se transmitem informações, possibilitando-se o acesso ‘a informação, a expressão e a defesa de pontos de vistas, tão importantes quando se fala em argumentação.

Pelo estudo de valores, a nosso ver, cria-se nova perspectiva no ensino de técnicas argumentativas, abrem-se novas visões de mundo, propicia-se a polêmica, a discussão sobre o material psicossocial, examinam-se contextos históricos, em variadas circunstâncias de produção.

Valores/lugares argumentativos são inerentes à cultura e encontram-se nos mais variados meios de interlocução. Estudos argumentativo-disssertativos poderão oferecer agora, tanto ao aluno quanto ao professor, novas ferramentas para discussão, elaboração de pensamento e escritura textual. é um bom começo, espera-se.


 

BIBLIOGRAFIA

BENVENISTE. E. O aparelho formal da enunciação. In: Problemas de lingüística geral. V. 2. Campinas: UNICAMP, 1979.

CHARAUDEAU, Patrick. Langage et discours: elements de semiolingüistique. Paris: Hachette, 1983.

––––––. Para uma nova análise do discurso. In: O discurso da mídia. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996.

HERSEY, John. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

KOCH, Ingedore G. Villaça. Argumentação e linguagem. 8ª ed. São Paulo: Cortez, 2002.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.

PARÂMETROS curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamentallíngua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

PAULIUKONIS, Maria Aparecida Lino & GAVAZZI, Sigrid (orgs.). Texto e discurso : mídia, literatura e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003.

PERELMAN, Chaïm & OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da Argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

SANTOS, Leonor Werneck dos. (org.). Discurso, coesão, argumentação. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996.


 


 

[1] Este trabalho faz parte do Projeto, ora em fase de redação, “lugares/valores argumentativos na mídia : o caso dos relatos jornalísticos de guerra” - para o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas/UFF - que envolve o exame de duas obras (a referida neste texto e Deus é inocente; a imprensa, não, sobre a invasão americana no Afeganistão)

[2] O que de fato ocorreu: o sucesso foi absoluto, tanto em termos quantitativos (vendagem e reedições) quanto nos moldes qualitativos (a obra ainda é considerada por estudiosos da Comunicação como uma marco no jornalismo literário, gênero (híbrido) que, para alguns, incorpora a qualidade textual característica do fazer literário.

[3] Consideramos “relato”, “história” e “narrativa”, neste trabalho, por economia metodológica, em equivalência sinonímica.

[4] Os termos “autor”, “redator”, “narrador”, “cronista”, “jornalista” também são utilizados intercambiavelmente.

[5] Estudos sobre valores remontam à Antigüidade Clássica, incluindo obras de Aristóteles. Optamos pela interpretação a eles aferida por Perelman & Olbrechts-Tyteca por serem mais acessíveis ao professorado em geral

[6] trataremos dos mais genéricos, portanto, os mais utilizados. A exemplificação advém do texto em questão.

[7] O avião em posição central, Enola Gay, era justamente o que transportava (e liberaria) a Bomba H.

[8] O governo incentivava os moradores a derrubarem suas próprias casas para servirem de abrigos contra bombardeios

[9] Sr. B (ou B-san) eram o apelido dos aviões B-29 que vinham há algum tempo bombardeando as regiões japonesas.

[10] Tal Praça era considerado o local mais seguro das ilhas – no entanto, foi o lugar onde mais se registraram mortes, constituindo o ponto central dos efeitos atômicos.

[11] O pretérito imperfeito ou outro, de ação inacabada, demonstram bem o passadoinacabado– a bomba não permite a continuidade dos atos e, na maioria dos casos, da vida humana em si.

[12] O que prepara o campo do suspense, que permeia a desarmonia, a complicação narrativa.

[13] Este primeiro fragmento também pode ser subdividido:

a)    o fato (mola propulsora do texto) – uso do pretérito perfeito

b)    os antecedentes – uso do pretérito imperfeito ou verbos de ações inacabadas

c)    o resultado – uso do pretérito perfeito

Observe-se :

a) “No dia 6 de agosto de 1945, precisamente ‘as oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima,

b) a srta Toshiko Sasaki (...) acabara de sentar-se (....) dr. Masakzu Fujii se acomodava (...)a sra. Hatsuiyo Nakamura (...) observava (...)

c) Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram

[14] A sincronia (cuja marca são os verbos no pretérito perfeito) é narrada passo a passo : os personagens, mesmo sem o saber, igualam-se primeiro por suas ações, depois por seu destino – o de participantes e sobreviventes.

[15] O resultado também se apresenta em ordem parelha – ação (explosão da bomba) acarreta reação – e o ordenamento metódico do cronista mostra-se novamente presente, com todos os seis personagens. Apreciem-se dois deles :

a) “... ele correu para a rua (...) Sob o que parecia uma nuvem de poeira, o dia escurecia mais e mais” (p  )

b) “... alguma coisa a levantou e a fez voar (....) Tudo escureceu”

[16] O próprio fato de os fatos/verdades/presunções (domínio do real) assomaram sob a forma de uma narrativa ratifica o preferível, o presumível, aquilo em que se quer que os outros acreditem, pois a linguagem (não importa sob que suporte textual) mostra-se como uma forma de ação sobre o mundo, dotada de intencionalidade e, por isso mesmo, veiculadora de ideologia (Koch, 2002:15).