APONTAMENTOS PARA UMA ANÁLISE
DA
UNIDADE LEXICAL
IBÉRICA NA AMÉRICA

Luiz Antônio Lindo (USP)

 

“...e nós com os castelhanos que somos mais vizinhos concorremos muitas vezes em umas mesmas vozes e letras” (Fernão de Oliveira, Grammatica da Lingoagem Portuguesa, cap. VII, 369-371)

 

A linguagem é a manifestação externa do conhecer discursivo. O pensamento produzido pela faculdade discursiva encontra na linguagem o meio de se exteriorizar. A multiplicidade dos fenômenos do pensamento, como a dúvida, o entendimento, a afirmação, o querer, etc. se fazem conhecer exteriormente por meio da linguagem. O ato individual que permite exercer a função da linguagem, por sua vez, é a fala. Exprimir-se verbalmente mediante o uso de regras e disposições sistematizadas implica usar uma língua. Meios sociais com certo grau de organização interna mostram-se propensos a desenvolver sistemas lingüísticos próprios, através dos quais desenvolvem mecanismos de exteriorização do seu modo de viver e conseqüentemente de pensar. As suas escolhas lingüísticas particulares, feitas em obediência ao sentimento comunitário que os aglutina e lhes confere identidade, representam uma determinada percepção da realidade do mundo e fundam as bases sociais das chamadas línguas naturais.

A unidade de uma língua é uma tendência que se manifesta na medida em que as forças que a mantêm funcionando tomam uma direção coincidente com os objetivos do agrupamento social que a utiliza. A tendência para a aglutinação aparece concretamente como tensão aplicada por forças externas, de caráter precipuamente sociais, que agem continuamente sobre ela. Vale dizer que a idéia de construção de uma língua reside em algo que se acha além dela própria. Entregue a si mesma, a língua fica sujeita ao desaparecimento ou ancilose por falta de uso. Os obstáculos que a língua tem de vencer para se apresentar unitariamente levam-na a defrontar-se primeiro com a natureza vicária da linguagem em face do pensamento, mais que movente, movida; em seguida, com a sua estrutura de coisa plural, forçada a encontrar constantemente expressão para a infinidade das coisas e das atividades, além de depender das intenções dos seus praticantes, sempre ocasionadoras de mudanças. A única maneira lícita pela qual cremos poder entender a unidade de uma língua é concebê-la como uma unidade de pluralidades. A unidade interior se revela na harmonia que rege os seus elementos díspares, assegurando-lhe organicidade. A unidade determinada exteriormente tem por motor o próprio pensamento e por extensão o mundo das coisas reais, mas também e principalmente a pressão e o controle exercidos pelos seus elaboradores e praticantes no sentido de lhe garantir uma identidade conforme aos seus desígnios institucionais, fatores esses que se mostram essenciais não para o funcionamento do seu mecanismo interno, mas também para o seu desenvolvimento. O vínculo essencial da linguagem com o pensamento e as coisas faz com que a sua exteriorização por meio duma palavra ou frase pressuponha sujeito e objeto colaborando para a expressão. Os blocos de expressão que chamamos palavra ou frase constituem uma pluralidade que toma por meio dessa colaboração a forma de uma unidade. Assim, cada realização lingüística cumpre esse ditame da função intelectual do pensamento discursivo que é o de pôr a fluir o seu conteúdo numa forma expressiva.

Sabemos que a materialização da linguagem numa língua tem início na intenção de exteriorizar o pensamento. A linguagem subsiste como função do pensamento e adquire expressão exterior através da palavra. A língua, por sua vez, é a expressão verbal do pensamento de uma forma sistemática, ou seja, apresenta-se como um todo constituído de partes. As partes que estruturam o sistema da língua compreendem um repertório de fonemas, um vocabulário definido, sincategoremas, ortografia para o uso escrito, etc. A ordenação do conjunto está a cargo de um dispositivo teórico apto a orientar com regularidade e método o manejo das partes, ou seja, de uma gramática, cuja aquisição permite ademais o seu ensino disciplinar. Dizer que a língua constitui um todo não é simplesmente dizer que é algo composto como um mero conglomerado de partições. Se assim fosse, o seu estudo seria conduzido possivelmente em termos da análise das proporções entre as partes constitutivas, e nos aferraríamos, como ocorreu na história da lingüística, à noção de umsistema” da língua auto-subsistente. Pelo contrário, a língua nos aparece como um conjunto em constante ideação determinado interna e externamente. Melhor seria falar em todo representativo da língua, o qual deve ser buscado em outro aspecto da sua composição que não o do mero arranjo das partes, conquanto seja possível, abstraindo da sua dinâmica transformadora e dirigindo o foco para um momento estagnado do seu evolver, isto é, para o estado sincrônico, averiguar as proporções dos elementos que entram na sua composição, colecionando-os e separando-os concomitantemente para encontrar nas suas diferenças mútuas a chave da sua organização. Entendemos que tratar os elementos da língua como uma mistura de elementos estruturalmente arranjados leva a passar por alto as suas características reais. Cremos, ao contrário, que o todo verdadeiramente identificador de uma língua é da espécie de algo cuja homogeneidade é antes uma aspiração, porque pressupõe a ação de uma vontade externa. A possível homogeneidade da língua é a das partes que são iguais entre si na medida em que estão todas presentes de maneira indissolúvel na constituição do todo. A língua homogênea seria a resultante da associação de elementos que concorrem para a sua finalidade. Esses elementos ou partes da língua adquirem funções voltadas para a realização dessa finalidade. Com isso, pode-se pensar na língua como produto de outra língua distinta e capaz de gerar novas produções distintas de si mesma. Pode-se pensar também na língua que se desenvolve de acordo com os ditames nascidos na consciência de um grupo social. A íntima associação do sistema lingüístico com a ordem social se faz necessária para a função institucional da língua. O seu enraizamento na psicologia individual e social, a relação íntima entre o pensamento e o discurso, donde nasce propriamente a fala humana, se desdobra no meio social como um instrumento de comunicação e de defesa de valores culturais. As partes da língua são assim vistas como meios de perseguir os objetivos do grupo social ao qual ela serve. Daí que seja tanto mais homogênea quanto mais se apresentar como o instrumento de um meio social coeso em plena atividade. Línguas como o português ou o espanhol se enquadram nessa perspectiva: elas servem aos seus respectivos sistemas sociais, quais sejam as respectivas nações, em todos os seus aspectos e âmbitos, sendo empregadas de maneira sistemática com vistas à realização de fins particulares, incluindo a comunicação interna e externa.

O emprego de uma língua por um segmento social, do mais restrito ao mais amplo, pressupõe um aperfeiçoamento contínuo dos seus meios de expressão, de conformidade ao interesse precípuo do grupo. A língua tem o caráter de uma formação lingüística correspondente à formação social em que ganha vida e pode ser considerada um instrumento estratégico do agrupamento humano. Cada uma de suas partes atua organicamente segundo o esquema de desenvolvimento e aperfeiçoamento das práticas sociais voltadas para a realização dos objetivos próprios da formação social que a utiliza.

O português e o espanhol, enquanto línguas nacionais, acham-se por isso tão separados um do outro na atualidade, tanto quanto se pode pressupor que estavam para um observador arguto situado nos primórdios de sua formação, quando começaram a se desenhar com nitidez as suas respectivas funções institucionais. Chama a atenção, no entanto, que algumas de suas particularidades do período inicial de sua formação tenham sido notadas por alguns observadores como traços de união prenunciadores de uma hipotética unidade lingüística primordial.

Por falta de outras indicações, ou devido à dificuldade de estabelecer nexos seguros em domínios menos permeáveis às mudanças, como o da fonética, as aproximações são feitas sobretudo à volta dos exemplos lexicais. Por exemplo, ao estudar uma série conceptual abrangente que lhe permitisse tirar conclusões sobre a evolução especial de cada romance, G. Rohlfs falava num fundo lingüístico específico ao português e ao espanhol e lembrava que “as diferenças entre o espanhol e o português são mínimas: port. esquecer em vez de esp. olvidar (esp. ant. escaecer), alfaiate por sastre (esp. ant. alfayate), fonte por sien”. I. Iordan (in Rev. Fil. Rom. Germ., I, 1957, p. 104), como notou Rohlfs, também concluiu pela unidade léxica de castelhano e português[i].

K. Baldinger reiterava o valor da expressãorelativa (grifada no original) unidade lingüística da Península Ibérica”, empregada por R. M. Pidal em referência ao período de implantação do castelhano como idioma nacional. W. Wartburg, como lembrou Baldinger, também fez menção a uma relativa unidade lingüística ibérica, ao afirmar qued’abord la Hispania est relativement (grif. no original) uniforme, et se signale par des traits conservateurs” (Actas del VII Congreso Internacional de Lingüística Románica, 2, 1955, p. 36). em Les Origines des Peuples Romans fazia conhecer onde situava a «langue ibérique»: «parlée dans la péninsule ibérique et encore relativement une». Em La Fragmentation Linguistique de la Romania, contudo, Wartburg deixou claro que não se pode falar em homogeneidade lingüística na Península na época românica: “Il ne semble pas que l’Ibéroromania ait constitué une unité linguistique homogène aux époques romaine et wisigothique. Les recherches de ses quarante dernières années ont fourni la preuve manifeste d’une différenciation dialectale considérable. Mais cette fragmentation initiale n’a pas eu de grande importance pour la division ultérieure et définitive de la Péninsule. Le facteur décisif fut ici, on le sait, l’originalité linguistique de la Castille, combinée avec la grande force d’expansion de cette province sur le plan politico-militaire.” (p. 135)[ii].

A construção pelos romanos de uma Europa mediterrânica, cultural e lingüísticamente una, muito além dos limites da antiga cidadela latina, incluiu necessariamente a Península Ibérica, em razão das suas disposições naturais e políticas. No vasto território da Hispania agiam desde um longínquo passado forças internas de desenvolvimento que tanto conduziam à conciliação aglutinadora das diferentes tribos e povos quanto, ao contrário, à dissolução dos enlaces preexistentes. Sobrevindos sob a égide das relações de vizinhança permanentes, os romances dali trilham o caminho da coexistência, enquanto consolidam ou lutam para não perder as suas respectivas identidades. A coexistência é a sua condição, independentemente do que se entende ser a sua particular situação. A expressão mais notória da coexistência são obviamente os pontos comuns, sobretudo em matéria lexical, que no âmbito ibérico muitas vezes, por sua estreita homologia, dão a impressão de serem repetições dum mesmo signo e não colaterais difundidos internacionalmente e intercambiados mediante empréstimo. A quantidade de pontos comuns ligando os idiomas ibéricos reflete muitas vezes a maneira como o latim veio a fazer a sua morada na Península. As palavras ali chegam transplantadas em bloco, num dado momento da romanização, gerando ocorrências exclusivas em face de outros romances[iii]. A “exclusividade então pode ser rotulada de “conservadorismo”, quando a forma exclusiva transplantada remonta a épocas arcaicas. Os arcaísmos peninsulares podem ainda servir parademonstrar que a Península constitui uma “área lateral quando comparada com as “áreas centrais” irradiadoras de cultura e linguagem, o que lhe acresce a especificidade[iv].

No plano fonético-morfológico, impõe-se a tipificação dos hábitos lingüísticos na formação de sílabas (por exemplo, a prosódia trocaica).

Outros fatores que contribuem para a noção de uma comunidade lingüística hispânica podem ser encontrados na estratigrafia lingüística da região. Primeiro, é de notar a possível influência de um substrato pré-romano de ação universalizante no desenvolvimento do latim vulgar da região. Em seguida, o superstrato visigótico, que forneceu vocábulos e traços fonéticos próprios tanto ao espanhol como ao português[v]. Finalmente, o adstrato árabe, que faz mostra de grande relevância no século X, ao lado do dialeto moçárabe, quer na Espanha, quer em Portugal. Cada um desses fatores tem a sua ação universalizante explicada em última instância pela capacidade demonstrada pelo poder político em exercer a sua supremacia e assim impor a sua língua. Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que cada um dos grupos que sucessivamente disputam ou empalmam o poder após a decadência romana revela-se capaz de fornecer aquisições à língua românica em formação.

A coexistência intramuros dos falares hispânicos é um dado que se impõe na aproximação dos diferentes falares que por vias naturais se desenvolveram desde sempre nas diferentes sedes regionais. Assim, quando falamos em grandes unidades encerradas em si mesmas, como o português e o espanhol, estamos nos referindo ao que resultou de um longo processo de homogeneização lingüística atuante interna e externamente, o qual teve êxito em apagar muitas das diferenças passadas encontradas nos falares regionais e em enriquecer o patrimônio próprio com contribuições alheias, até constituir uma língua de caráter universalizante, cuja força de coesão reflete a ação hegemônica exorbitada de um poder político ostensivo. Dessa força e dessa ação nucleares dependeram ambos os idiomas, como é fácil verificar. Nesse contexto, as relações entre o português e o espanhol estão marcadas ora pela consciência lingüística moderada das similaridades, ora pela expressão hipercaracterizadora das diferenças mútuas. As oscilações têm a ver em grande parte com a retórica imprimida à caracterização da nacionalidade, mas sabemos que os movimentos espontâneos de natureza precipuamente lingüística tendem a acarretar a regionalização dos falares, com o relativo encerramento nos próprios limites. Os governos e suas políticas culturais, do mesmo modo, costumam buscar a afirmação de uma mesma língua nos limites do seu território jurídico, e o fazem à custa dos hábitos lingüísticos particularizantes. Expressam assim o seunacionalismo lingüístico por meio da coarctação dos direitos dos demais dialetos porventura vistos como concorrentes, dando assim à política cultural oficial a função de preservar o idioma nacional, o qual passa a ser visto como o modelo que exclui os demais. Sem pretender entrar no mérito da discussão, vemos que a política cultural para a língua, mais precisamente a adotada em todos os estados em formação na Idade Média européia, transformou-se numa questão estatal, isto é, fez parte da luta pela formação de cada Estado. O chamado Estado-mosaico europeu teve de tomar as medidas para unificar não o seu território, mas também a sua linguagem. O resultado, a língua standard, representa no plano dos usos e funções dos segmentos organizacionais aquilo que no plano jurídico, como projeção da ordem constitucional, representa a nação como um todo[vi]. Vale dizer, todos os esforços passam a ser no sentido da criação de uma língua de e para todos os nacionais e com propósitos de universalização a reboque da eventual política imperialista do Estado. Falar em relativa unidade lingüística da Península Ibérica, como apontaram alguns estudiosos (Wartburg a sustenta até por volta do ano mil, in Les Origines des Peuples Romans, p. 193), tomando por base certos traços comuns introduzidos durante a romanização das províncias hispânicas, pode fazer sentido se entendermos “relativo em referência às forças coesivas da coexistência lingüística. Fora daí, falar em unidade lingüística, ainda querelativa”, é assumir a mesma perspectiva que norteia a elaboração do standard, ou seja, é defender a possibilidade duma língua de uso geral apta à comunicação em todas as particularidades da vida social, a qual, para cumprir essa função, deve ser regulamentada convenientemente por usuários especiais, dotados dos requisitos culturais legitimados por um poder que se supõe consensual. Ora, a verdade é que uma tal língua não existe e provavelmente nunca existiu nas sociedades tradicionais. A prova disso é a constante forja de novas variantes, na forma de gírias, jargões, calões e outras modalidades periféricas, recorrentes em todos os tempos, realizada por grupos cujas práticas sociais levam-nos a se afastar das convenções, seja por necessidade, seja por outras razões.

A tendência para amalgamar na linguagem responde ao princípio de funcionamento do todo que é a língua, como tivemos oportunidade de mencionar. Se tomarmos uma variedade idiomática, desde a mais abrangente e refinada como a standard até a mais restrita e despojada como o patois caipira, a fim de conhecer o seu funcionamento ou talvez defender os seus valores, o que nos restará diante dos olhos será sempre algo dotado de uma dinâmica centrípeta, inclinado a se fechar nos seus limites e a se separar dos seus contrários. Nesse sentido, toda variedade lingüística, por mais exaltada ou depreciada que seja, sê-lo-á na medida em que for percebida como capaz de satisfazer aos valores defendidos pelo conjunto institucional a que pertence. Não importa tanto saber se as partes que a compõem obedecem a regras ou prescrições estabelecidas com zelo, mas sim se o seu uso atende às exigências do segmento que a defende, até para com ela produzir a identificação do todo social. É por isso que, no caso dos standards português ou espanhol da era moderna, é possível até testemunhar uma ou outra aspiração isolada em defesa do seu uso indistinto (sobretudo literário), como ocorreu num clima bastante moderado por ocasião da união das duas Coroas; todavia, tornou-se praticamente impossível ver isso acontecer ao ter início a fase verdadeiramente “moderna” da história dos dois idiomas, quando a promoção do standard português ou espanhol aglutinou forças demasiado poderosas no seio das respectivas nações para que se levantassem vozes em defesa da “unidade”.

As similaridades lingüísticas conhecidas entre o português e o espanhol a partir da romanização, encontradas desde os primórdios desse processo, no século III a. C., como fazem ver as sobrevivências lexicais dessa fase inicial, os conhecidos arcaísmos, encontram um paralelo nos grandes movimentos homogeneizadores da cultura européia, os quais têm por efeito intensificar as trocas culturais sobretudo entre os povos mediterrânicos. Desde a época clássica até a Romania medieval - e depois no humanismo, no Renascimento, no Iluminismo, para não falar dos seus sucedâneos mais modernos, como a Revolução Industrial e a Revolução Tecnológica, estas últimas mais bem ambientadas em áreas situadas além da Romania propriamente dita -, os grandes movimentos intelectuais se mostraram geradores de novos conceitos e concepções de linguagem que promoveram uma aproximação entre os povos e os idiomas por eles falados[vii].

Um outro momento grandioso da história do Ocidente que foi a colonização da América pela Hispania moderna, a qual representou uma ampliação imensa de todo o horizonte da antiga Romania, também teve conseqüências para o desenvolvimento dos idiomas ibéricos transplantados e por extensão para a cultura lingüística ocidental.

Ao serem trazidos para a América, o português e o espanhol gozavam do estatuto de idiomas maiores, previamente submetidos à prova de sociedades complexas repletas de exigências no campo da comunicação oral e da literatura, conquanto se achassem no fim de um ciclo que estava para colocá-los no limiar de uma fase ainda mais plena de desenvolvimento. Os seus princípios evolutivos se faziam sentir na altura por um aprimoramento da morfologia e da ortografia, alterações fonéticas e sobretudo um aperfeiçoamento do vocabulário. As modificações encontravam o seu modus operandi basicamente na adaptação casuística da linguagem às necessidades reais. Duas modalidades de renovação do léxico, porém, pareciam predominar. Uma comandada pelo recurso ao patrimônio léxico da antigüidade clássica, através sobretudo da tradução dos autores canônicos, os quais eram reinterpretados com finalidade renovadora segundo as lições do humanismo; a outra, de índole prática e natural, fez eclodir uma grande quantidade de termos destinados a expressar os novos valores culturais e os novos inventos da técnica, de acordo com o espírito racionalista da época. A descoberta do Novo Mundo participa do crescendo de aquisições gerais da civilização ocidental descortinando novos horizontes que esboçam o potencial criador de uma periferia intimamente ligada ao seu centro irradiador. O contato com a natureza americana, mas sobretudo com os povos da América e seus inúmeros falares, representa um desafio para os idiomas ibéricos, o qual é vencido, a princípio com hesitação, mediante a adaptação dos termos indígenas designadores das coisas inusitadas da vida americana. Enquanto alguns vocábulos se espraiaram por áreas geográfica e culturalmente mais amplas, outros ficaram até certo ponto confinados à região onde os contatos foram mais intensos.

A entrada dos americanismos no português e no espanhol da América no século XVI constitui a nosso ver um capítulo da história desses idiomas capaz de elucidar a maneira como uma língua standard se comporta diante das dificuldades que se lhe deparam no momento em que precisa adaptar-se a condições externas particularmente adversas. A relação dos romances com os idiomas americanos a partir do século XVI, como se sabe, foi tensa, tendo sido contornada, durante um largo período de convivência entre os diferentes tipos lingüísticos, com a adoção das chamadaslínguas gerais”, verdadeiras koinés americanas difundidas por grandes regiões da colônia. As “línguas gerais” chegaram a predominar enquanto os idiomas adventícios não contavam com um número suficientemente grande de falantes para fazer frente à ameaça dos idiomas da terra. No Brasil, somente após a expulsão dos jesuítas, em 1.757, foi a situação resolvida mediante “a extirpação de toda a influência da caluniada Companhia [de Jesus], inclusive o uso da língua geral (grifado no original)[viii]. Mas, como havia acontecido na Península Ibérica, as incipientes formações sociais americanas garantiram a supremacia do espanhol e do português ao adotá-los nos negócios administrativos, que neles “era possível entender-se oficialmente com os agentes do Estado[ix]. Sobre a espontaneidade dos falares crioulos acabou prevalecendo o prestígio do linguajar do grupo dominante.

Enquanto isso, inúmeros empréstimos de vocabulário iam fazendo a sua entrada nas línguas ibéricas. Em geral, o empréstimo do termo indígena preservou a matéria fônica original, até onde foi possível, isto é, mediante uma adaptação que levasse em conta o mecanismo fonético da língua tomadora. Este empréstimo de vocabulário não se confunde com os neologismos cultos obtidos por justaposição ou aglutinação de membros indígenas, os quais passaram a predominar no século XIX e com os quais os seus autores procuraram artistificar a matéria-prima fornecida pelas línguas autóctones.

Os empréstimos de vocábulos indígenas que vieram a fazer parte das línguas modernas entraram primeiramente no espanhol e daí se espalharam pelas demais línguas, incluindo o português. O primeiro estabelecimento espanhol nas Grandes Antilhas, portanto o lugar do primeiro contato de uma língua romance com outra ameríndia, mostra isso. Embora não tenha contribuído com o maior número de empréstimos, a língua taino, do povo que mais privou do convívio com os espanhóis durante os primeiros 30 anos da colonização, forneceu aqueles que adquiriram maior grau de universalização no espanhol e nas demais línguas modernas. Um estudo de Hugo A. Mejías (“Préstamos de lenguas indígenas en el español americano del siglo XVII”, 1.980), citado por Juan Clemente Zamora, afirma que 63 de 69 empréstimos tainos levantados no dicionário de M. A. Morínigo (Diccionario Manual de Americanismos, 1.966) acabaram sendo usados fora das Antilhas, contra apenas 39 dentre os 95 de origem náuatle, e destes somente 10 tiveram uma expansão geográfica maior; para os de origem quíchua os resultados são ainda menos expressivos: somente 8 dentre 24 ultrapassaram os limites antilhanos, e apenas 3 se espraiaram mais amplamente[x]. Zamora pondera que o prestígio contou como o fator determinante nesse sucesso. Não o da língua ou do povo taino, aliás logo desaparecido, mas o da experiência das coisas americanas que aquela permitiu transmitir através da língua espanhola. Dessa forma, os empréstimos daquela língua convertem-se de signos em símbolos (grifado no original). Passam pois a constituir emblemas da experiência que os veteranos conquistadores carregam por todas as regiões por onde andam, alargando assim a área de atuação dos empréstimos até estes adquirirem uma posição preponderante em relação aos demais oriundos de outras línguas autóctones.

Vejamos alguns desses vocábulos e sua situação por vezes concorrente:

Quíchua

Taino

Náuatle

Maia

 

Canoa

 

 

 

 

Chocolate

 

 

Maní

Cacahuate

 

Papa

Batata

 

 

Palta

 

Aguacate

 

 

Cacique

 

 

 

 

 

Cigarro

 

Hamaca

 

 

 

Maíz

 

 

 

 

Petaca

 

 

Barbacoa

 

 

 

Enagua

 

 

Obs.: Conserva-se a grafia em espanhol.

A proporção maior dessas palavras dentro do português atual fica com as do grupo taino, à exceção de cigarro, que não se presta a esse tipo de comparação por ser ocorrência única. A entrada de algumas delas em nossa língua se deu no século XVI, como o faz ver Gândavo, que empregou canoa (p. 130) e batata (p. 97) na História (publicada em 1.576). O destaque das vozes tainas dentro duma outra língua que não o espanhol, tal no português e em outras, corrobora o poder de abrangência maior dessa língua. Outro ponto que merece atenção é que as denominações do taino não são na sua maioria do tipo faunístico, diferenciando-se do que é geralmente característico das contribuições ameríndias. A palavracacique” e sua derivada “caciquismo” prestam-se mesmo a matéria abstrata, visto que se referem a uma classe de pessoas e sua conduta, podendo assim entrar no discurso escolar como parte duma quaestio infinita. Isso mostra que as palavras das línguas acima não são capazes de conservar o seu sabor original que as fazem participar no jogo dos sentidos presente em toda experiência estética, mas também podem simbolizar a necessidade expressa no primeiro castelhano da América de condividir a sua linguagem com a linguagem dos povos americanos. O sentido dessa acomodação, que a etnologia percebe como um reflexo do assomo de liberdade emanado da massa substancial da nacionalidade euramericana, a filologia percebe como a origem da história lingüística específica dessa mesma massa. Assim como as instituições sociais indígenas e ibéricas aglutinadas nos primeiros estabelecimentos coloniais constituem os pilares da formação social especificamente americana, as línguas ameríndias e as ibéricas, onde os contatos são mais intensos, dão início a uma fase ibero-indígena da linguagem americana, marcada pela dialética da coexistência lingüística. O predomínio de um lado sobre o outro com o resultado que se conhece faz parte do processo de unificação de um povo, processo esse que passa necessariamente pela unificação lingüística, nos moldes da experiência européia e mundial das línguas.

Entendemos que a mútua adaptação lingüística da fase ibero-indígena, apesar da supremacia alcançada mais tarde pelas línguas dos conquistadores, deixou suas marcas nos falares americanos. Cremos que algumas das particularidades desses falares se devem exatamente a influências indígenas infundidas desde os primeiros tempos da coexistência, por mais difícil que seja proceder à sua demonstração. A estas devemos atribuir uma parte das divergências que separam a língua falada da escrita nas diferentes áreas do Continente. Cremos que o vocabulário faunístico e florístico de origem indígena, a par das criações toponímicas tardias, imprimem traços progressistas e individuais à língua oficial e são indícios de que as línguas aclimatadas na América têm um destino próprio correspondente ao destino dos povos que as empregam. Da mesma maneira que as línguas européias modernas devem a sua unidade substancial distinta ao conjunto de fatores internos e externos que agiram na sua formação, cuja especificidade cumpre interpretar através do estudo da sua respectiva história interna e externa, as línguas ibéricas transplantadas para a América latina entraram numa fase diversa da sua evolução a partir do momento em que começaram a adaptar os seus mecanismos aos das línguas ameríndias com as quais passaram a conviver. Com a adoção dos americanismos, a constituição da unidade caracterizadora da identidade lingüística passou a implicar a incorporação de produtos lingüísticos de origem distinta. Tal como acontecera no passado europeu, por ocasião do empréstimo de vocábulos por via da ação do substrato e do superstrato, quando novas derivações de uso passaram a fazer parte e a contribuir para uma reidentificação de cada todo lingüístico, na América Latina a generalização de vocábulos tainos, por exemplo, põe em ação o mesmo processo nas línguas tomadoras dos empréstimos, revelando-se a generalização uma prova disso, visto que o que confere identidade a uma língua é a definição dos seus mecanismos de expressão e a correlata institucionalização do seu poder de comunicar. O compartilhamento pelo português das vozes tainas adotadas primeiramente no espanhol repete, respeitadas as devidas peculiaridades, as condições de existência de uma comunidade lingüística ibérica, desde a chamada etapa ibero-românica. Os fenômenos mais abrangentes e flagrantes desta vez como da outra mais antiga são os lexicais, os mais aptos a transpor fronteiras e a acomodar-se da outra parte. Acreditamos que a situação peculiar de serem os naturais da terra os mutuantes deu ainda mais força à interpenetração das respectivas línguas, em razão de o conhecimento e a experiência serem essenciais à nomenclatura, por isso mesmo reservada ao nomothétes mencionado por Platão no Crátilo.

 

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[i] (ROHLFS, 1983:  251 e n. 564)

[ii] In La Formación de los Dominios Lingüísticos en la Península Ibérica, p. 55 e n. 29.

[iii] R. Lapesa dá vários exemplos de vocábulos incorporados ao vocabulário ibérico, especialmente o espanhol e o português, provenientes do latim arcaico de Névio, Plauto, Ennio e Terêncio ou de autores latinos de outras épocas, os quais, não sendo encontrados fora da Península, lhes dão um “tom” ora conservador, ora castiço. Op. cit., p. 88 ss.

[iv] Como na tese de M. Bartoli expendida em tantos trabalhos, entre outros em “Fatti caratteristici della romanità della Penisola Iberica”, in Atti del I Congresso Nazionale di Studi Romani.

[v] M. Pidal afirma a respeito: “...podemos afirmar que o romance mais comum da época visigoda não apresentava como caracteres próprios os que depois chegariam a ser distintivos da língua espanhola oficial. Pelo contrário, ofereciam os traços em que hoje o Ocidente e o Levante se afastam do castelhano para se conformarem com outros romances estrangeiros, porque esses traços achavam-se também em todo o território moçárabe.” In Orígenes del Español Estado Lingüístico de la Península Ibérica Hasta el Siglo XI, p. 503.

[vi] P.. Bourdieu discute a questão do ponto de vista sociológico in «La production et la reproduction de la langue légitime», Ce que Parler Veut Dire, p. 23 ss.

[vii] O assunto é vasto e não pode ser convenientemente analisado aqui. Entre os inúmeros trabalhos disponíveis, citamos os seguintes: R. M. Pidal, La Lengua de Cristóbal Colón; R. Flasche, “Das Wort raison im 16. Jahrhundert: Zur Methodik der modernen Wortforschung”, in Zeitschrift für Romanische Philologie, 1.964, 80, pp. 291-315; P. Zumthor, «Pour une histoire du vocabulaire français des idées», in Zeitschrift für Romanische Philologie, 1956, 72, pp. 340-362; L. Spitzer, “Semantica storica”, in Critica Stilistica e Storia del Linguaggio; E. R. Curtius, European Literature and the Latin Middle Ages; K. Vossler, Espiritu y Cultura en el Lenguaje; B. Snell, “La formazione dei concetti scientifici nella lingua greca”, in La Cultura Greca e le Origini del Pensiero Europeo; H. Weinrich, “La conscience linguistique espagnole au Siècle d’Or”, in Conscience Linguistique et Lectures Littéraires; M. L. C. Buescu, Aspectos da Herança Clássica na Cultura Portuguesa; G. Matoré, Le Vocabulaire et la Société Médiévale.

[viii] Serafim da Silva Neto, Introdução da Língua Portuguesa no Brasil, p. 66.

[ix] Idem, ibidem, p. 67

[x] (ZAMORA, 1982: 165)