Questões relevantes
na descrição fraseológica

Maria Aparecida Barbosa (USP)

 

Introdução

Este trabalho propôs-se a estudar as especificidades e as convergências conceituais e terminológicas dos subconjuntos tipológicos do grande universo da Fraseologia. Propôs-se, ainda, a examinar os frasemas nas linguagens de especialidade e na língua geral. Por fim, a analisar e descrever alguns aspectos de suas estruturas morfo-semântico-sintáticas, em nível de sistema, de normas, de discursos-ocorrência, com vistas ao levantamento dos processos preferenciais de remotivação, ressemantização, relexicalização, como marcas de universos de discurso. Constituiram o corpus da pesquisa textos de discursos literários, publicitários e de discursos científicos. Os dados foram analisados e descritos segundo modelos de Bejoint e Thoiron (1992), Desmet (1995), Cabré (1993), Pereira (1999), Lorente, Estopá e Bevilacqua (2002), dentre outros. O estudo possibilitou a inferência de estruturas específicas das unidades fraseológicas especializadas e das não-especializadas, nos universos de discurso propostos. Possibilitou, também, verificar os processos considerados e os graus de desvio em relação a uma norma parâmetro (corpus parâmetro), confirmando-se que um efeito de estilo é detectável pela surpresa que provoca no ouvinte/leitor, conforme a norma, imagem dos nossos hábitos lingüísticos. Numa perspectiva semiótica e pragmática, os sujeitos enunciadores das unidades fraseológicas examinadas, especializadas ou não, utilizaram, em alto grau, nos textos do corpus, as possibilidades que o sistema lingüístico lhes oferecia, ressemantizando-as, relexicalizando-as, remotivando-as, nos processos de formação de fraseologias mais freqüentes. Por outro lado, a pesquisa permitiu levantar dados significativos não apenas, para uma caracterização dos universos de discurso, mas também para observar certos traços culturais marcantes, que revelam influências interculturais e processos de reconceptualzação.


 

A formação do conceito
em discursos de diferentes naturezas

Como dissemos em trabalho anterior (Barbosa, 2001), examinando os contextos que sustentam e manifestam a complexa formação do conceito, contextos constituídos de textos de especialistas e da mídia-, de que se extraem os traços conceptuais, do discurso literário, ou, ainda, de diferentes discursos sociais não-literários, verifica-se, que alguns desses contextos privilegiam o conceito stricto sensu, outros, o metaconceito e, outros, enfim, o metametaconceito, sempre numa relação dialética de presentificação dos traços já existentes no sistema e a incorporação de novos traços decorrentes das circunstâncias específicas da enunciação e do enunciado em causa.

Com efeito, em cada universo de discurso o processo de engendramento do conceito tem aspectos bastante específicos, que requereriam um exame minucioso, já que esse processo, ao lado de outras marcas, pode ser um caracterizador importante de universos de discurso, enquanto classes de discurso, ou de discursos manifestados. Desse modo, o processo de neles enfatizar, ou o conceito stricto sensu, ou o metaconceito, ou o metametaconceito, bem como o processo de criação desses subconjuntos conceptuais, nesses universos, ao longo do percurso realizado pelo enunciador do discurso em questão, nas etapas da enunciação – da cognição à semiose –, constituem diferenciadores relevantes de cada um deles. Apenas esses dois aspectos serão aqui considerados, pois o exame exaustivo de todas as marcas dos universos de discurso escaparia aos limites deste artigo.

Antes, porém, parece-nos necessário retomar, neste momento, a concepção de universo de discurso tal como formalizada por Pais:

Tomando-se a noção matemática de universo, como “conjunto de todas as partes”, torna-se possível elaborar uma concepção muito útil, o metamodelo de universo de discurso. Assim, este pode ser definido como um conjunto não-finito ou que tende ad infinitum, de todos os discursos manifestados que apresentam determinadas características e constantes, assim como determinadas coerções, suscetíveis de configurar uma norma. (...) A norma discursiva que lhe corresponde, definida por tais características comuns e constantes, bem como por tais coerções, configura, portanto, um conjunto de critérios de equivalência, pelos quais é lícito reunir diferentes discursos manifestados, discursos-ocorrências, numa classe de equivalência discursiva, o universo de discurso considerado. Essa norma é dinâmica, seja porque se reformula continuamente, ao longo do eixo da História, seja porque sofre a interferência de normas de outros universos de discurso. O sujeito falante-ouvinte dela tem ou pode ter uma noção intuitiva, ao passo que, do ângulo científico, assume sempre um valor estatístico (constantes em relação a variáveis) e nunca imperativo, já que um único e mesmo discurso manifestado poder pertencer simultaneamente a mais de um universo de discurso, como, por exemplo, o científico/pedagógico. Por outro lado, semelhante norma de universo de discurso compreende, na verdade, uma série de normas frásticas, lexicais, sintáticas, semântico-sintáticas e, por vezes, fonético-fonológicas, e outras tantas normas transfrásticas, narrativas e discursivas. Relativas à argumentação, à veridicção, à verossimilhança ou à eficácia e às relações entre estas, às concernentes aos mecanismos de persuasão/interpretação, de manipulação e contramanipulação, a formulações específicas das relações enunciado/enunciação, das relações inter-subjetivas e espaço-temporais, como, ainda, as que dizem respeito às modalidades e às modalizações discursivas dominantes, ou às que estariam, em princípio, excluídas, e, enfim, aos processos de produção e sustentação de ideologia próprios aos diferentes universos de discurso (Pais, 1984: 44-45).

A essas normas julgamos necessário acrescentar os dois processos acima apontados, ou seja, as normas que se referem, respectivamente, ao processo de criação do conceito, modus operandi conceptual (A), instância do discurso em atualização, e ao processo de seleção das pregnâncias, na construção do conceito lato sensu, que se concluem, como produto, no discurso realizado (B), não só em discursos técnico-científicos, como também nos discursos literários e em distintos discursos sociais não-literários.

Vale a pena lembrar as palavras de Greimas, no tocante à organização dos discursos figurativos e não figurativos:

O rápido progresso de nossos conhecimentos sobre a organização dos discursos figurativos (folclore, mitologia, literatura) suscitou esperanças quanto à possibilidade de uma classificação e de uma regulamentação das formas narrativas que dessem lugar a uma gramática e a uma lógica narrativas (...) Reconheceu-se, em seguida, a impossibilidade de construir gramática discursiva que não desse conta, também, dos discursos não figurativos – ou que assim o parecem –, que são os discursos desenvolvidos no vasto domínio das “humanidades”, que desconhecesse os discursos que desenvolvemos nós mesmos em ciências do homem (Greimas, 1976: 3).

Quanto ao processo de construção de um conceito, modus operandi conceptual (A), cabe ressaltar, antes de mais nada, que esse processo pode ser “vertical” – do “fato” para o patamar cognitivo –, ou pode ser desencadeado nas relações sintagmáticas de um discurso manifestado, em que o autor vai pouco a pouco construindo, no seu texto, um conceito qualquer. No segundo processo, a combinatória das palavras-ocorrência vai paulatinamente configurando o recorte conceptual que o autor tem de um ‘fato’. De outro ângulo, tem-se o percurso que toma como ponto de partida o discurso manifestado, para chegar novamente ao nível conceptual, que caracteriza o fazer interpretativo do sujeito enunciatário, ou, noutras palavras, um processo semasiológico, do signo para o conceito, realizado por quem ouve ou quem lê.

Ainda na perspectiva do processo (A), deve-se observar que a construção do conceito assume características semânticas, sintáticas, semióticas, pragmáticas diversas, se ocorre nas linguagens de especialidade ou nos discursos literários e ou em outros discursos sociais não-literários: o modo de engendramento de um conceito está, pois, em função do universo de discurso.

Assinalemos, aqui, uma diferença relevante: no discurso científico, sujeito e anti-sujeito correspondem freqüentemente a interlocutores; no discurso literário, sujeito e anti-sujeito são instalados no texto pelo autor. No discurso científico/tecnológico, o engendramento de um conceito geralmente se dá em relações intertextuais/interdiscursivas de vários pesquisadores, simultaneamente à formulação da teoria que o contém; no discurso literário, uma obra pode ser auto-suficiente, no engendramento de um conceito, numa intertextualidade intra e interdiscursiva. No discurso técnico-científico, teórico e/ou prático, assim como no discurso literário, o engendramento do conceito é sintagmático, narrativo, transfrástico; no discurso terminológico, é eminentemente paradigmático, como processo e produto final, embora resulte de extrações de contextos de natureza transfrástica.

Quanto ao processo de enunciação, é preciso considerar o papel actancial de Sujeito enunciador. No discurso técnico-científico, converte-se num ator individual e/ou coletivo, que sustenta, de toda maneira, a ‘visão de mundo’, os recortes culturais da comunidade científica e da área de especialidade em causa; no discurso literário, temos via de regra, um Sujeito enunciador que se converte, nas estruturas discursivas, em um ator (o autor, por exemplo, ou seu pseudônimo, ou um ator delegado, etc.); no discurso jornalístico e no discurso político, ainda que se manifeste um ator, este remete ao papel actancial de um sujeito enunciador coletivo, na medida em que deve representar aspirações, expectativas, exigências de um partido político, de uma classe social, de um grupo profissional.

Entretanto, nas relações que se estabelecem entre o conceito, no nível semântico-cognitivo, a tematização e a figurativização, no nível semiótico, como também no próprio processo de enunciação residem, quanto ao processo (A), as principais diferenças entre universos de discurso. De maneira geral, um conceito é convertido, no percurso gerativo da enunciação, em temas, abstratos, e em figuras que dão ‘corpo’, ‘espessura’ à idéia, acentuando seu efeito de sentido de veridicção ou verossimilhança, entendendo-se por tema a semiotização do conceito, por tematização, o processo de construção de idéias abstratas e, por figurativização, o processo de corporificação dessas idéias. Daí resultam as isotopias temáticas e as isotopias figurativas, enquanto processos de redundância sêmica. Nessas condições, um discurso filosófico, por exemplo, tende a ser mais abstrato, com maior incidência de isotopias temáticas; um texto literário tende a ser mais figurativo, com grande abundância de isotopias figurativas, embora tais distinções jamais sejam excludentes. Noutras palavras, são efetuados recortes distintos, tomando como ponto de partida conceitos lato sensu, ‘modelos mentais’. Nos discursos político, jornalístico, publicitário, a (re)elaboração de um conceito, no nível semântico-cognitivo, resulta de um trabalho de equipe, na medida em que busca captar e/ou reconstruir o imaginário coletivo da sociedade ou de um segmento social. O sujeito enunciador do discurso político, por exemplo, geralmente não fala em seu próprio nome mas em nome das diretrizes partidárias e dos interesses que esse partido procura defender. Desse modo, o processo de cognição, de contínua reconstrução do ‘saber sobre o mundo’ assume características específicas, visto que se acha intimamente relacionado ao processo de ‘formulação do mundo’, de construção da ‘visão do mundo’ desse grupo, como é o caso, por exemplo, do mundo semioticamente construído pelos grupos políticos que defendem os interesses dos grandes proprietários rurais.

Da mesma forma, distingue-se o engendramento do conceito de medo, quando tratado num discurso científico como o da clínica médica, ou quando é processado numa tragédia, no teatro.

Assim, também, se pode tomar como pontos de partida, na conceptualização, os conceitos de amor, morte, felicidade/infelicidade, possibilidade/impossibilidade e conduzir à sua conversão em tema, no nível semiótico, chegando a “amor impossível”. Desse ângulo, é legítimo relacionar Romeu e Julieta e Orfeu Negro. No entanto, diferenciam-se claramente, no que tange à figurativização, à espacialização, à temporalização, nas estruturas discursivas.

Isso nos autoriza a propor o seguinte esquema:

 

 

Isso significa que, no percurso que vai da conceptualização à semiotização houve uma seleção de traços semântico-conceptuais e o correspondente recorte do recorte cultural pré-existente, em função das constantes e coerções características de universos de discurso. Noutros termos, as pregnâncias são redirecionadas.

Essa dominância de alguns elementos do conceito sobre outros constitui uma ‘escolha” do Sujeito enunciador no processo de enunciação. Um dos aspectos que caracteriza a especificidade da cognição, em diferentes universos de discurso, são as distintas pregnâncias de um mesmo ‘fato’: cada universo de discurso apreende e reelabora certos traços semântico-conceptuais, deixando outros traços latentes. Conseqüentemente, o conceito vai ser tematizado e figurativizado, no nível semiótico, de acordo com as pregnâncias do Sujeito enunciador.

Quanto aos subconjuntos conceptuais suscetíveis de ênfase nos diferentes discursos, processo (B), diríamos que o discurso técnico-científico tende a privilegiar o conceptus stricto sensu – subconjunto dos traços que servem à conceptualização da semiótica natural – e, ainda, nos discursos que circulam na comunidade científica internacional, o arquiconceptus, multilíngüe e multicultural. O discurso literário tende a dar ênfase ao metaconceptus – subconjunto dos traços semântico-conceptuais culturais, produzindo simultaneamente, uma modificação do recorte cultural, própria de uma reconstrução particular do mundo semioticamente construído. O discurso político e o discurso jornalístico, por exemplo, tendem a destacar o metametaconceptus, subconjunto dos traços modalizadores, manipulatórios, em busca de eficácia discursiva. Esquematicamente, temos:

Universo de Discurso

Modus operandi conceptual

Tendência à dominância de subconjuntos conceptuais

Discurso terminológico

eminentemente paradigmático

conceptus stricto sensu arquiconceptus

Discurso técnico– científico

paradigmático sintagmático

conceptus stricto sensu arquiconceptus

Discurso literário

eminentemente sintagmático

metaconceptus

Outros Discursos sociais não-literários

eminentemente sintagmático

metametaconceptus

Figura 2: Tendências de conceptualização

Essas considerações autorizam dizer que as transcodificações não estabelecem relações biunívocas entre entre texto-objeto e seu metatexto, ou antes, seus metatextos, ou, noutros termos, entre tema e suas figurativizações.

 

Semiotização e contextualização do conceito

Como se sabe, o quarto momento do percurso gerativo da enunciação de codificação é o da lexemização, que corresponde à conversão do conceito em grandeza-signo, função semiótica e/ou funções metassemióticas, ou seja, à passagem do nível cognitivo para o nível semiótico, à configuração do conceito em significação, precedente à sua atualização num discurso concretamente realizado.

Impõem-se, aqui, algumas observações. No processo de conversão do conceito lato sensu em unidade lexical, os três subconjuntos do primeiro – arquiconceptus, metaconceptus, metametaconceptus –, transformados em semas lingüísticos, passam a constituir o semema dessa unidade lexical, o qual, em nível de sistema, caracteriza-se como polissêmico e, muitas vezes, polissemêmico, ou seja, o sobressemema, não só por conter os traços semânticos dos três subconjuntos citados mas também por conter, eventualmente, traços semânticos de outros conceitos lato sensu. É o caso, por exemplo, da unidade lexical peça, considerada em nível de sistema.

Por outro lado, um conceito pode ser representado, nessa instância de semiotização, por uma ou várias unidades lexicais, respectivamente, campos lexicais unitário ou múltiplo, num mesmo texto ou em textos distintos.

De outro ângulo, uma unidade lexical pode integrar vários campos lexicais, em nível de sistema e de discurso, em função dos recortes que sustenta e da rede de relações que se estabelecem entre conceitos afins, nos diferentes universos de discurso. Assim, por exemplo, liberdade pertence a um campo semântico do discurso político, na expressão liberdade, igualdade, fraternidade e pertence ao discurso publicitário na expressão “você tem mais liberdade usando o cartão de crédito x...”. No primeiro caso, liga-se aos conceitos de ideal de democracia e Estado de Direito, no segundo caso, ao conceito de poder aquisitivo.

Observe-se, ainda, que esses processos se realizam com qualquer tipo de unidades lexicais – simples, compostas, complexas, textuais –, que, nesse nível de sistema, integram a instância de competência que precede e autoriza a sua atualização num discurso manifestado.

No processo de contextualização, tem-se um epissemema (simultaneamente, com a redução dos semas do sobressemema, ou seja, a seleção determinada por uma situação de discurso e de enunciação, e o acréscimo de semas do contexto, na combinatória sintagmática), de que resulta a semiose. Nesse nível, as unidades lexicais do discurso manifestado que representam o mesmo conceito lato sensu podem ocorrer como função semiótica, ou como metassemiótica lato sensu.

É imprescindível não confundir mas distinguir, com toda a clareza, de um lado, as relações que se estabelecem entre subconjuntos de traços semântico-conceptuais do conceito lato sensu, que se situam no nível semântico-cognitivo, relações intra e interconceptuais, e, de outro lado, as relações de significação, que se estabelecem, por sua vez, no nível semiótico, entre denotação (grandeza-signo, ERC), conotação (metáfora, metonímia, (ERC)RC) e metassemiótica propriamente dita, ER(ERC)).

Cremos não ser demais repetir que o signo-ocorrência pode atualizar um ou outro subconjunto, ou mesmo os três subconjuntos do conceptus lato sensu, sem estar em função conotativa ou metassemiótica propriamente dita. Aqui a relação que se estabelece é entre conceito-signo. Já os signos-ocorrência podem estar em função denotativa, conotativa, metassemiótica, no que se refere aos signos que lhes serviram, de base. Nesse caso, a relação que se estabelece é entre signo-signo, entre função semiótica-função semiótica. Assim, por exemplo, ciência e competência têm um significado, como vocábulos, na linguagem banal, são termos em epistemologia e metatermos no octógono semiótico elaborado por Pais (1993: 617).

 

A fraseologia em diferentes patamares
do percurso gerativo

Das grandezas-sígnicas resultantes dos processos de conceptualização, semiotização e lexemização, destacam-se, aqui, apenas as grandezas denominadas fraseologias.

 

Configuração conceitual da fraseologia

A fraseologia é um dos ramos das ciências da palavra que tem por objeto de estudo as ‘unidades lexicais’ constituídas de dois ou mais vocábulos ou de sintagmas e de frases, com grau variável de lexicalização, ou seja, com diferentes tipos e graus diversos de integração semântica e sintática de seus constituintes. Fraseologia significa, ainda, o conjunto de frasemas de um universo de discurso. O termo fraseologia refere-se, pois, a dois conceitos diferentes, embora complementares.

Fraseologia é um hiperônimo, se se considera o termo como definidor de uma classe de equivalência sintática e semântica; classe de elementos que não são idênticos mas que podem ser agrupados segundo algum critério. Qualquer classe de equivalência assim se define. Do ponto de vista do seu significado, é um arquissemema/arquilexema, isto é, define uma classe em que todos os elementos do conjunti têm um núcleo semântico e estrutural comum.. No caso de fraseologias, os diferentes elementos da classe são: provérbios, colocações, ditos populares, refrãos, dentre outros. Cada um deles tem estruturas semânticas, sintáticas e pragmáticas específicas, agrupam-se, entretanto, sustentados por elementos estruturais comuns – apresentam, todos, integração, mais ou menos acentuada, entre as suas partes.

Quanto aos traços específicos e identificadores de cada grupo, não obstante as numerosas pesquisas, acredita-se não se ter, ainda, um resultado satisfatório.

No que concerne aos diferentes tipos e graus de lexicalização, saliente-se que existem três tipos de integração (Pottier, 1978): a adjetivação, que é uma integração de primeiro grau, já que não implica um comprometimento necessário entre os constituintes, como, por exemplo, “a mesa redonda é mais prática que a mesa retangular”; a síntese vocabular, do tipo doador, é uma integração de segundo grau; os frasemas constituem uma síntese de terceiro grau: quem tudo quer, tudo perde.

 

Frasemas em nível de sistema, de normas, de texto-ocorrência

Os frasemas assumem características bastante diversas, se analisados nesses diferentes níveis de atualização. Com efeito, o espectro semântico e sintático do frasema, em nível de sistema (Coseriu, 1980) aponta para uma unidade léxica consensual, diatópica, distrática, diafásica e, até mesmo, diacrônica. Em nível de normas, assume o estatuto de uma possível marca de um universo de discurso, com características sobretudo sinfásicas. A análise dos frasemas mais freqüentes no discurso jurídico, no discurso publicitário, por exemplo, mostra traços bem diferentes dessas unidades, em cada um deles, e permite tirar conclusões relevantes.

Nesta pesquisa, entretanto, examinaram-se tais unidades lexicais em nível de textos-ocorrência, no âmbito do discurso literário, mais especificamente, textos de Guimarães Rosa, e do discurso publicitário. Essa análise permitiu chegar à seguinte sistematização:

a) Processos de relexemização

                “deu patas à fantasia”

                “dera ali o ar de sua desgraça”

 

                b) processos de deslexicalização (processo primário) e posterior relexicalização (processo secundário):

:” o Feio está ficando coisa”

“esta é aquela flor de com que não se bater nem em mulher”

 

c) processos de instauração inédita de lexicalizações:

“para os pobres os lugares são mais longe”

“o medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”

 

d) processos de ressemantização:

“o furo do ano sem dor” (discurso publicitário)

 

                e) processos de reconceptualização (o ponto de vista ou a lógica específica de cada cultura):

[

 
Português: “Um é pouco, dois é bom, três é demais”

Francês: “Un médecin soigne, deux estropient, trois tuent”

 

Considerações finais

Este trabalho examinou questões relativas à configuração conceitual e estrutural de fraseologias. Examinou, ainda, diferentes tipos de unidades fraseológicas, com vistas à proposição de uma tipologia de fraseologias, suas estruturas morfo-semântico-sintáticas, seus diversos graus de lexicalização, seu papel no conjunto de elementos de um sistema lingüístico e correspondente sistema sociocultural. Procedeu-se à análise das relações semântico-conceptuais, léxico-semânticas e semântico-sintáticas dessas unidades, numa perspectiva mono e multilíngüe, mono e multicultural. Ressaltou-se o papel social e cultural dessas unidades lingüísticas, geradoras e reflexos de recortes culturais. Com efeito, a formação dos frasemas é resposta às necessidades criadas por uma nova situação social. Do ponto de vista sociológico, assim como do da semântica cognitiva, cada nova proposição de um frasema merece atenção especial, pois não implica apenas a composição de percepção de um novo fato antropocultural e de uma nova unidade lingüística, constitui, sobretudo, o resultado de uma estrutura mais complexa, de formulação e de seleção das proposições feitas no contexto do grupo social interessado. Enfim, examinaram-se frasemas no nível de sistema e no nível de discurso-ocorrência, destacando-se as remotivações, relexicalizações, ressemantizações e reconceptualizações que sofrem, nessa última instância.

Além da sistematização proposta, a pesquisa permitiu levantar dados significativos, não apenas com o objetivo de uma caracterização possível de universos de discurso, mas também, para observar certos traços relativos às identidades culturais, assim como os que revelam influências interculturais. O suporte teórico para esta abordagem está justamente centrado nos processos de reconceptualização.

 

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

BARBOSA, Maria Aparecida. A construção do conceito nos discursos técnico-científicos, nos discursos literários e nos discursos sociais não-literários. Revista brasileira de lingüística. São Paulo, vol. 11, ano 27, p. 31-60, 2001.

BARBOSA, Maria Aparecida e PAIS, Cidmar Teodoro. Terminologia aplicada: trajetórias transdisciplinares. Horizontes de lingüística aplicada. Brasília, UnB, vol. 3, n.º 1, p. 37-62, 2004.

BÉJOINT, H.; THOIRON, Ph. Macrostructure et microstructure dans un dictionnaire de collocations en langue de spécialité. Terminologie et traduction, 2-3. Bruxelas, C.E.E., 1992.

CABRÉ, Maria Teresa. La terminología. Teoría, metodología, aplicaciones. Barcelona: Antártida/Empuries, 1993.

COSERIU, Eugenio. Lições de lingüística geral. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1980.

DESMET, I. Pour une approche terminoloigique des sciences sociales et humaines. [Thesis doctoral]. Paris: Université Paris-Nord, 1995.

GREIMAS, Algirdas Julien. Semiótica do discurso científico. Da modalidade. Tradução de Cidmar Teodoro Pais. São Paulo: DIFEL-SBPL, 1976.

LORENTE, M.; BEVILAQUA, C.R., ESTOPÀ, R. El análisis de la fraseología especializada mediante elementos da lingüística actual. In: CORREA, M. (Org.) Atas do VI Simpósio da Rede Ibero-americana de Terminologia. Lisboa: Ed. Colibri, 2002.

PAIS, Cidmar Teodoro. Aspectos de uma tipologia dos universos de discurso. Revista Brasileira de Lingüística. São Paulo, v. 7, n.º 1, p. 43-65, 1984.

––––––. Conditions sémantico-syntaxiques et sémiotiques de la productivité systémique, lexicale et discursive. Doctorat d'État ès-Lettres et Sciences Humaines. Directeur de Recherche: Bernard Pottier. Paris: Université de Paris-Sorbonne (Paris-IV) / Lille: Atelier National de Reproduction des Thèses, 761 p, 1993.

POTTIER, Bernard. Lingüística geral. Teoria e descrição. Rio: Presença/UFRJ, 1978.

SILVA, José Pereira da. Ensaios de fraseologia. Rio de Janeiro: CIFEFIL/Dialogarts, 1999.