I JORNADA NACIONAL DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Programação

Livro de Resumos


A ALTERNÂNCIA INDICATIVO/SUBJUNTIVO
NO PORTUGUÊS BRASILEIRO
UMA ABORDAGEM COGNITIVISTA E CONSTRUCIONAL

Juliana Marins (UFRJ)
Diogo Pinheiro (UFRJ)

 

Verifica-se hoje, no português brasileiro (PB), uma variação entre o uso do presente do indicativo e presente do subjuntivo em diferentes contextos. É o que atestam os exemplos abaixo, colhidos de páginas da Internet:

(1) Suponho que ele quer que as pessoas se entendam, mas não tem mais jeito deles se entenderem agora!

(2) Sei lá, suponho que ele queira as gráficas para... ver porn...

(3) Crie diversas opções para que ele pode escolher uma.

(4) Isto será a base para que ele possa descobrir seu novo lar.

Nesta comunicação, analisaremos a variação indicativo/subjuntivo no PB a partir de uma perspectiva cognitivista e construcional (cf. Goldberg, 1995 e 2006). Nossa investigação irá se deter apenas nos contextos em que (i) a variação se dá em uma oração encaixada completiva e (ii) a oração matriz exibe um verbo cognitivo como “julgar”, “crer”, “achar”, “supor”, etc.

Sustentamos que a configuração sintática descrita acima se faz presente em duas construções gramaticais distintas: com verbo da oração encaixada no indicativo ou no subjuntivo. O objetivo da nossa pesquisa é descrever ambas as construções, bem como o modo como elas afetam o sentido dos verbos que as instanciam. Essa descrição, por fim, deverá cobrir, a um só tempo, a representação conceptual das construções (em espaços mentais) e suas especificações semântico-pragmáticas.


 

A atualidade dos contos de fadas

Sonia Maria Alvarez

 

A compreensão da metáfora em literatura é influenciada pela subjetividade que dá ao leitor o máximo de liberdade para a realização da leitura (Green, 1996). É essa subjetividade que mostra a permanência desses textos, em diferentes épocas, com diferentes recontextualizações.

Essa realização subjetiva, com o conto de fadas, pode levar ao estabelecimento de uma relação entre o mundo externo (o outro) e o da experiência do leitor, representado pela busca da identidade no contexto da luta interior em confronto com a realidade social.. As metáforas do conto de fadas funcionam como um mascaramento, porque a visão direta do eu costuma ser rejeitada em termos racionais (Andolfi et alii, 1990). Estabelece-se um trabalho cooperativo, em que se pode ver o outro/eu na figura de diferentes personagens. A essência da metáfora é entender e experienciar um tipo de coisa em termos de outra (Lakoff, 1980): lê-se um conto de fadas e pode-se experienciar as dores do herói, suas angústias e agonia como se fossem as do leitor.

A partir desse pressuposto, realizamos um trabalho com o conto “O Patinho Feio” em que dez informantes leram a história e responderam a um questionário aberto com cinco perguntas. Com a análise dos dados, verificamos como resposta o assumir o herói do conto, em certos aspectos, como se tais aspectos fossem os dos próprios informantes.


A AVALIAÇÃO EM LEITURA
À LUZ DA LINGÜÍSTICA SÓCIO-COGNITIVA

Michelli Bastos Ferreira (UFRJ)

 

Objetiva-se, neste trabalho, investigar os saberes de ordem sócio-cognitiva ativados pelos alunos na atribuição de respostas às perguntas propostas por livros didáticos de Língua Portuguesa de sétima série de ensino fundamental. Á luz da Lingüística Sócio-Cognitiva e, mais precisamente, com base em Gerhardt (2005), acredita-se que a resposta dada pelos alunos é representativa do acionamento de saberes acumulado e processual, cuja regularidade pode ser abstraída mesmo diante de diferentes respostas oferecidas por uma turma. Portanto, as condições de validação dessas respostas como fruto de acionamentos cognitivos sistemáticos nem sempre coincidirão com o que é legitimado como certo na resposta proposta pelo livro. O “corpus” de análise compreende livros didáticos de Língua Portuguesa de sétima série do ensino fundamental, nos quais se seleciona uma atividade a ser aplicada em uma turma, buscando-se comparar entre alunos e livro didático a abstração dos saberes envolvidos na atribuição de respostas e verificação do que se aproxima e do que se afasta dos padrões de saber suscitados pela leitura do texto e pelas perguntas.


 

A CLASSE DOS OPERADORES ESCALARES:

UM ESTUDO DA POLISSEMIA DO ATÉ

Patrícia Teles (UFRJ)

 

O item lexical até vem sendo tratado pelos estudos tradicionais como preposição ou como partícula de inclusão. Vejamos os exemplos:

(1)     Ele chegou até mim e disse toda a verdade.

(2)     Até eu recebi o castigo.

Essa visão agrupa o até em categorias excludentes, como exemplos de homonímia. Além de desconsiderar as motivações semântico-pragmáticas atuantes.

Na contramão dessa abordagem, temos a descrição sócio-cognitiva dos usos gramaticais. Nessa ótica, o elemento gramatical até corresponde a um caso de polissemia, ou seja, um item lexical com uma família de sentidos relacionados (Lakoff, 1987).

O até se enquadraria na categoria de operadores escalares, ou seja, elementos gramaticais que promovem a escalarização de valores. Esses valores podem ser, nesse caso, espacial, temporal e pragmático. Vejamos exemplos de escalarização espacial e temporal, respectivamente:

(3) A BR 10 vai de Porto Alegre até Belém do Pará.

(4)      Até ontem o feijão custava 2500 cruzeiros o quilo.

Temos, ainda, a escalarização de valores pragmáticos:

(5)     Até a L´oreal criou uma escova progressiva.

Nesse caso (como nos usos espacial e temporal), o elemento até dispara o enquadramento da situação em uma escala, sinalizando um ponto-limite. Além disso, promove um rearranjo dos elementos das categorias em questão, em função do valor do escalarizador ATÉ-X (a L’oreal).

Nossa descrição debruça-se sobre o quadro teórico cognitivista, para o qual convergem os estudos de Lakoff (1987), Kay (1997), Fauconnier (1994 e 1997) e Fauconnier & Turner (2002), entre outros. Sob essa ótica, temos esquemas conceptuais, adequados a nossas crenças e experiências, com os quais acessamos mapeamentos referenciais entre domínios. Mencionem-se ainda os conceitos de esquemas imagéticos, espaços-mentais, MCIs, mesclas conceituais, princípios constitutivos e governadores da compressão das Relações Vitais e Escala, além das noções de categorias prototípicas e radiais.


 

A entrevista na tv:
uma reflexão sobre a co-construção dos sentidos

Eliana Vianna Brito (UBC)

 

O ser humano revela-se como tal porque se utiliza da linguagem. Tudo aquilo em que acredita, seus valores, suas crenças, em síntese, sua visão de mundo só adquire existência a partir do momento em que, por intermédio da linguagem, o indivíduo se desvenda para o outro, envolvendo-se, assim, num processo contínuo de interação.

Inegavelmente, a linguagem é a condição primordial para que os indivíduos possam interagir. A interação pressupõe, portanto, o uso de linguagens em suas mais diferentes formas de manifestação. Nesse sentido, pode-se dizer que os saberes construídos e difundidos pela humanidade só o foram em razão da natureza sócio-cultural do ser humano que, ao atuar lingüisticamente, envolve-se num processo de interação, por meio do qual ocorre a co-construção dos saberes, o que o diferencia dos animais irracionais.

A partir dessas afirmações, o objetivo deste trabalho é o de apresentar a análise de uma situação de interação face a face, mais especificamente uma entrevista televisionada, a fim de observarmos o modo pelo qual se dá a co-construção dos sentidos, conforme os pressupostos teóricos da Análise do Discurso sob a ótica psico-social, preconizada por Charaudeau (1991,1994).


A etnia e a identidade através
dos termos da culinária moçambicana

Fátima Helena Azevedo de Oliveira (UNESA)

 

O trabalho procura contribuir teoricamente, mediante revisão bibliográfica da teoria da Terminologia e de estudos empíricos sobre a relação entre etnia e identidade, ao analisar os termos especializados presentes nas receitas culinárias escritas na República Popular de Moçambique, país africano falante da Língua Portuguesa como oficial. Adota uma abordagem que procura explicar os termos a partir dos processos de difusão dos procedimentos culinários africanos e integração dos termos das Línguas moçambicanas e a Língua portuguesa. A primeira fazendo sobressair a personalidade do povo; enquanto a segunda atendendo à necessidade, pós-independência de expressar por escrito a culturas de se congregar socialmente, de construir e desenvolver um saber popular.

Entende-se aqui língua como a forma que a sociedade encontrou de expressar o íntimo de sua alma, construindo a pessoa. A língua cria a identidade. Assim, a presença das Línguas moçambicanas nas receitas culinárias escritas em português, idealiza a identidade e individualiza a marca de autenticidade, a fala pessoal.


A EXPRESSÃO DO SUJEITO
NAS FORMAS IMPERATIVAS PUBLICITÁRIAS

Rita de Cássia Mattos Nunes (UBM)
Rosana Bittencourt Negrini (UBM)
Wanessa Quintiliano de Melo (UBM)

 

A publicidade tornou-se a linguagem pública dominante, sendo capaz de, por meio de imagens e breves textos, relacionar a mercadoria ao estilo de vida do possível consumidor. Seu objetivo é vender e por isso utiliza uma linguagem que procura convencer. Assim, nos anúncios publicitários predominam formas verbais imperativas, com sujeitos marcados pelas desinências dos verbos e ou reforçados por pronomes da segunda pessoa. Este artigo investiga a representação do sujeito no texto publicitário como recurso persuasivo. O corpus constitui-se de três anúncios colhidos na revista Nova. Estabelecida a adjacência entre locutor (anunciante) e interlocutor (consumidor), acentua-se o resultado persuasivo. Essa proximidade não é assegurada somente pelo texto escrito. A imagem completa a argumentação, possibilitando ao consumidor uma previsão do que ele poderá vir a ser, se fizer uso dos produtos.

A importância da leitura
na aquisição da norma culta

Luziane Patrício Rodrigues (UERJ)

 

O presente trabalho tem por objetivo destacar a importância da leitura na aquisição da norma culta. Entendendo o ato de ler como um processo cognitivo, que contribui para o desenvolvimento da capacidade lingüística, conclui-se que em contato constante com a leitura, o falante tende a adequar o seu dialeto à norma padrão, exigida em inúmeras situações na vida social.

Além da  abordagem acerca do papel da escola como força padronizadora da norma culta e da meta da ONU de erradicação do analfabetismo , é proposto um novo conceito de Alfabetização, a partir das discussões sobre as contribuições da leitura,


A Ficção materna em textos de Milton Hatoum

Alcindo Miguel Martins Filho (UFF)

 

Partindo da leitura dos romances Relato de um Certo Oriente (2003), Dois Irmãos (2004) e Cinzas do Norte (2005) de Milton Hatoum, buscamos nesta comunicação iniciar a análise do lugar realizado pelas personagens na função de mães, como focos ou eixos dinâmicos que se repetem na construção romanesca destas obras, de um modo capaz de expressar a maternidade como uma questão significante.


A INFLUÊNCIA DO ESTRANGEIRISMOS
NA LINGÜÍSTICA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Jonatan Fernandes de Almeida (FAMA)
Cátia de Luziete Thomazinho Borges (FAMA)

 

O Brasil é um país com uma extensão territorial muito grande. E somando isto temos também um país que sofreu inúmeras influências culturais e sociais de outros países conseqüentemente de outras línguas.

Estas influências vêm acontecendo desde o descobrimento do país. O povo (população) de cada pedacinho do país assimilou e somou a sua fala local uma característica de um determinado país, ou de vários ao mesmo tempo. Tendo com base esta influência, fomos buscar outras mais recentes.

Levando em consideração o local onde cada pessoa que participou da pesquisa morava ( ou foi criada), também a formação sócio-econômico de cada uma .

Tivemos com base a influência dos anglicanismos na língua do nosso povo. Mas não aquela influência arcaica que já se fundiu a nossa língua e sim o moderno que vemos a toda hora na TV, nos Out Doors, na Internet, a influência que assimilamos e muitas das vezes não existe em nosso português uma tradução para ela.

O projeto foi dividido em etapas de como fazer. O projeto também mostra o lado do professor nesta nova fase da linguagem. e o professor a frente desta nova visão.

Para execução deste, foram feitas mais de 50 (cinqüenta) gravações de palavras e sons anglicanos que usamos em nossa língua. Sons e palavras que foram repetidamente pronunciados por pessoas (todas brasileiras) de várias partes do país.

Direcionamos e relacionamos o projeto ao conteúdo para se chegar a um produto final, a determinação de variações fonéticas e fonológicas.

O custo do projeto foi irrisório apenas do material de gravação e digitação.


A importância da leitura
na aquisição da norma culta

Luziane Patrício Rodrigues (UERJ)

 

O presente trabalho tem por objetivo destacar a importância da leitura na aquisição da norma culta. Entendendo o ato de ler como um processo cognitivo, que contribui para o desenvolvimento da capacidade lingüística, conclui-se que em contato constante com a leitura, o falante tende a adequar o seu dialeto à norma padrão, exigida em inúmeras situações na vida social.

Além da abordagem acerca do papel da escola como força padronizadora da norma culta e da meta da ONU de erradicação do analfabetismo ,é proposto um novo conceito de Alfabetização, a partir das discussões sobre as contribuições da leitura,


A MIMESE EM GREGÓRIO DE MATTOS E GUERRA

Ruy Magalhães de Araujo (UFRJ e UERJ)

 

Este trabalho tem por finalidade precípua demonstrar e justificar a criação por mimese em Gregório de Matos, através de um estudo intertextual de autores da Renascença portuguesa e do Barroco espanhol em que se lhes comparam e interpretam algumas produções poéticas.

Sob uma óptica diacrônica, faremos uma abordagem sucinta a respeito dos múltiplos caminhos percorridos pelos escritores em seu trabalho de imitação estético-literária, onde evidenciaremos os conceitos basilares de Platão, Aristóteles e Horácio (principalmente os deste último), e as mutações sofridas por esses conceitos ao longo da História, até os recentes estudos sobre intertextualidade.

Como protótipos de processos imitativos em Gregório de Matos, citaremos dois poetas da Renascença e do Barroco – Luís de Camões e Francisco de Quevedo – com os sonetos SETE ANOS DE PASTOR JACÓ SERVIA e CAGADO VOY DE MÍ, que foram imitados por Gregório de Matos, respectivamente, com os sonetos SETE ANOS A NOBREZA DA BAHIA e CARREGADO DE MIM ANDO NO MUNDO.

Nesse processo de criação intertextual, buscaremos dar maior ênfase à interpretação e aos comentários filológicos imanentes a esses mesmos textos depois de comparados, sempre procurando evidenciar os aspectos mais importantes da fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, lexicologia, bem como os semânticos ou semasiológicos, que, em outras palavras, constituem as facetas conteudísticas.


A mobilização de ações cognitivas
e lingüístico-discursivas na representação
do gênero dissertativo escolar

José Miguel de Mattos (UBC)

 

Os gêneros textuais são artefatos representados e materializados pela mobilização de ações cognitivas e lingüístico-discursivas feitas pelo produtor.

Há gêneros, no entanto, como o dissertativo escolar, que requerem ações de linguagem mais complexas para sua elaboração. Na construção desse texto, por exemplo, opinião e argumentos são ações fundamentais, pois, por elas, o produtor representa seus conhecimentos de mundo sobre determinado assunto, marcando sua opinião.

A partir dessas considerações, o objetivo deste artigo é mostrar quais ações cognitivas e lingüístico-discursivas produtores, com competência escritora desenvolvida, mobilizam para a construção de textos homologados pelo grupo social. A amostra, objeto da análise, é composta por 03 (três) produções textuais escritas pertencentes ao gênero dissertativo escolar. Os textos foram produzidos por alunos do último semestre do Curso de Letras de uma Universidade localizada em Mogi das Cruzes-SP. Para a consecução desse objetivo, utilizamos os pressupostos teóricos calcados em Bronckart (1997), Dolz e Schnewly (1998) e van Dijk (1992).


A RELAÇÃO SIGNO/SIGNIFICADO
E A PRESERVAÇÃO DO SENTIDO DO TEXTO LITERÁRIO
NA TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA

Marcel Alvaro de Amorim (UBM)

 

O presente trabalho objetiva traçar breves notas sobre a tradução intersemiótica, procurando alinhar os mais recentes estudos na área com um breve levantamento histórico da chamada tradução criativa. De fato, estudos voltados para a ambigüidade entre signo/significado vem ampliando seu campo de ação, hoje podemos falar da transmutação da palavra para imagens em movimento, imagens essas inseridas nos mais diferentes contextos: cinema, televisão, computador, entre outros. Porém, a tradução intersemiótica não resume-se a isto, já que podem ser classificadas como tal todas as transtextualizações de sentido. O sistema intersemiótico pode ser assim conceituado como “transmutação”, ou podemos ainda imaginar “a interpretação de signos ‘verbais’ por meio de signos ‘não verbais’”, justificando a procura por equivalentes imagéticos aos signos lingüísticos nos apresentados no texto. Entretanto, para se imaginar uma relação intersemiótica, deve-se levar em conta o procedimento que transporta ou traduz o sentido do texto para o outro contexto, promovendo uma leitura ou uma tradução intersemiótica. O objetivo deste trabalho é então, delinear traços sobre a tradução intersemiótica e observar a importância dada a transmutação de sentido ocorrida neste processo pelos principais teóricos da área, tendo como pressupostos teóricos básicos JAKOBSON (1959), ANATOL (1973) e DINIZ (2005)


A respeito
da elaboração do questionário do micro AFERJ

Fabiana da Silva Campos Almeida (UFRJ)

 

Este trabalho tem por objetivo a apresentação dos critérios utilizados na confecção do questionário fonético do Micro Atlas Fonético do Estado do Rio de Janeiro (Micro AFERJ) — pesquisa dialectológica, que vem sendo desenvolvida como tese de Doutoramento e que almeja a descrição de falares de doze municípios fluminenses, com base nos preceitos atuais da Geolingüística e em parâmetros de natureza sociolingüística. Pretende-se, com o presente estudo, demonstrar as vantagens e as desvantagens da aplicação de um questionário para que se possa captar a realidade lingüística de uma comunidade de fala. Contrastar-se-á ainda esse tipo de metodologia com a utilizada pela Sociolingüística. Serão abordados também outros tipos de questionário que vêm sendo usados na elaboração de atlas lingüísticos no Brasil, como o ALAM (Atlas Lingüístico do Amazonas) e o ALiB (Atlas Lingüístico do Brasil).


A utilidade
da relação entre filologia e estilística
no trabalho com o texto literário

Monique Lopes Inocencio (UERJ e FCRB)

 

Temos visto, em boa parte das Academias de Centros de Estudo brasileiros, certo desprezo pelos estudos relacionados à Filologia. Mas não podemos perder de vista a importância desta disciplina nas mais diversas perspectivas lingüísticas e literárias. Um dos papéis que a Filologia ocupa é o de esclarecer e elucidar a análise do texto literário. Aliada à Estilística, a abordagem filológica nos auxilia na construção de sentidos do texto literário, em especial da poesia. Pretendemos, com este discussão, problematizar e resgatar o papel que cabe aos estudos filológicos na relação que temos com a linguagem.


A Variação Lingüística na Sala de Aula

Renata Helena dos Santos (UERJ)

 

No presente trabalho, serão apresentadas algumas variações lingüísticas extraídas de situações do cotidiano escolar.

Devemos ficar atentos para alguns “erros” que, na verdade, são a utilização de uma regra não padrão em que o professor tende normalmente a repreender, fornecendo ao aluno a variante padrão como a única norma legítima e prestigiada pela sociedade.

Apesar dos vários estudos existentes sobre a variação lingüística, essa questão ainda é muito complexa e gera dúvidas e controvérsias. Basta ver como o assunto é tratado nos manuais escolares de ensino fundamental e médio. Este trabalho é uma reflexão sobre a importância da variação lingüística, especialmente os aspectos semânticos e sintáticos, e suas implicações no ensino de Língua Portuguesa.

Ao trabalhar com o conceito de variação lingüística, estamos pretendendo demonstrar que a língua portuguesa, como todas as línguas do mundo, não se apresenta de maneira uniforme em todo o território brasileiro, e desta mesma forma há essa variação na sala de aula. Se regionalmente conseguimos entender essa distinção lingüística, por que não a conseguimos no nosso cotidiano escolar?

Outro fato importante a ser tratado no presente trabalho é que não há hierarquia entre os usos variados da língua (ao contrário do que pensam), assim como não há uso lingüisticamente melhor que o outro. Em uma mesma comunidade lingüística, portanto, coexistem usos diferentes, não existindo um padrão de linguagem que possa ser considerado superior.

Assim, o trabalho tem como objetivo demonstrar as relações existentes entre o uso da língua, o falante e as variantes padrão e não padrão.


ALGUMAS DIFERENÇAS LINGÜÍSTICAS
ENTRE O PORTUGUÊS DE PORTUGAL E DO BRASIL,
SOB A ÓTICA DO MÚSICO E POETA PORTUGUÊS
JOSÉ FERNANDES DA SILVA,
DA EDITORA CASA DO POVO DE VILLA DE PRADO

Wanessa Silva Machado Rocha (UFF)

 

A fim de viabilizar o andamento da palestra, serão abordados os seguintes tópicos:

1)     Dizem que os portugueses, ao contrário dos brasileiros, utilizam a língua portuguesa “ao pé da letra”. Será? Uso da forma nominal no gerúndio, presente em nosso “português”. Ex: “Fulano está viajando!”. E, uso da forma nominal no infinitivo pessoal, presente em Portugal. Ex: “Fulano está a viajar!”. Curiosidades lingüísticas: uso do “Alô?” “brasileiro” x “Estou!” ou “Está lá?” português.

2)     As telenovelas brasileiras influenciaram a linguagem oral portuguesa? Destaque para os pronomes de tratamento “tu” e “você”.

3)     Omissão do sujeito ou predicado na Língua Portuguesa.

4)     Que língua fala-se no Brasil: “Língua Portuguesa” ou “Língua Brasileira”?

5)     Há, em Portugal, registro de muitas palavras surgidas através de “neologismos”, como ocorre no Brasil?

6)     Fala pausada brasileira x fala rápida portuguesa.

7)     Encontro consonantal /cç/, presente em muitos vocábulos portugueses, utilizados freqüentemente. No Brasil, seu uso limita-se apenas aos vocábulos arcaicos.

8)     A Linguagem utilizada pelos internautas é um novo dialeto?

9)     Como se dá o uso da norma não-culta em Portugal? Em destaque, o “Calão”.

10)  Em Portugal, como no Brasil, dá-se o “preconceito lingüístico”?


ÁLVARES DE AZEVEDO E A POÉTICA DA MELANCOLIA

Priscila Teixeira (UBM)

 

Consideramos relevante saber até onde Álvares de Azevedo foi influenciado pelo mal do século e de que maneira essa influência contribuiu para tornar seus poemas tão pessimistas e melancólicos, sendo caracterizados de maneira geral, como malditos. Por meio das análises descobriremos as diversas faces da melancolia, que aparece às vezes camuflada por trás de uma ironia exagerada, um satanismo. As informações utilizadas neste trabalho foram retiradas do livro Saturno nos Trópicos de Moacyr Scliar, que contém diferentes definições para melancolia , o que ajuda a vê-la sob diferentes pontos-de-vista, impedindo que haja uma visão limitada e aumentando as possibilidades de se obter diferentes interpretações dentro da poesia de Álvares de Azevedo. Foram utilizados os livros de Antônio Cândido de uma maneira geral e em especial Formação da Literatura Brasileira, que aborda outros aspectos importantes, tais como o caráter adolescente, a morbidez, o satanismo e o contraste na poesia de Álvares de Azevedo, ajudando a compreendê-la melhor e conseqüentemente servindo como um mapa que levará a entender e explicar o teor melancólico dentro de seus poemas. O corpus utilizado foi o livro Poesias Completas de Álvares de Azevedo, de onde foram retirados da segunda parte da Lira dos Vinte Anos três poemas que foram analisados procurando aí retratar a melancolia e seus múltiplos aspectos dentro de sua obra.


ANÁLISE ESTILÍSTICA DO TEXTO
“GIGOLÔ DAS PALAVRAS”
DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Janaína Oliveira (UERJ-FFP)
Patrícia Viana (UERJ-FFP)
Priscilla Cruz (UERJ-FFP)

 

Objetiva-se, neste estudo, proceder a uma análise estilística do texto de Luís Fernando Veríssimo, intitulado “Gigolô das Palavras”. Busca-se, sobretudo, verificar os recursos estilísticos presentes na crônica, que contribuem para o envolvimento do leitor e possível adesão à tese nela defendida. Para tanto, a análise do “corpus” que ora se apresenta subdivide-se em dois momentos, a saber: (1) o ensino de gramática; (2) o estilo irônico do autor. Desse modo, poder-se-á compreender de que forma o autor consegue argumentar e por sua vez, posicionar-se em relação ao ensino de gramática através de seu estilo irônico. Os pressupostos teóricos que norteiam este trabalho são, fundamentalmente, os de Monteiro (2005) e Botelho (2004).


ANTÓNIO LOBO ANTUNES: UMA ESCRITA-MANIIFESTO?

Cleidimar Ataíde (UBM)
Tatiana Pequeno da Silva (UBM/ UFRJ)

 

A obra Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes pode ser entendida a partir de uma perspectiva que se estabelece como manifesto contra a guerra colonial (1961 – 1974) . Com efeito, parece notável formular a hipótese de que a existência de uma melancolia no referido romance do autor em questão tenciona compreender um espaço desterritorializado por meio do qual o sujeito português vai ao encontro de sua finitude mais evidente, uma vez que se encontra disponível para matar e/ ou morrer em nome de ideais não por ele acreditados ou tomados como fundamentais. Conseqüentemente, esse topos autenticado pela ficção de Lobo Antunes garante `a memória cultural grandes delineamentos das identidades dos sujeitos contemporâneos nessa segunda metade do século XX, sobretudo se considerarmos para tais afirmações a obra A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, de Stuart Hall.


Aprendizagem de Português Brasileiro
– norma padrão e norma culta
em contexto de variação e mudança sintática

Mayra Cristina Guimarães Averbug (ISERJ-FAETEC e UFRJ)

 

Em que costuma basear-se o professor de português, em tempos de variação e mudança? Em sua prática, apóia-se nas prescrições da gramática tradicional e na descrição de estruturas e prioriza a análise sintática? Monitora os desvios dos estudantes sistematicamente?

Ou, por outro lado, conscientiza-se da fase de mudanças sintáticas, em estágio avançado na fala, por que passa o nosso português? E, por essa razão, aproveita o cabedal lingüístico de seus alunos, as habilidades e os avanços já alcançados antes de ingressarem na escola, acrescentando-lhes as informações de que não dispõem?

Para Kato (2005), no Brasil, “ao contrário do que ocorre em Portugal, a gramática da fala e a “gramática” da escrita apresentam uma distância de tal ordem que a aquisição desta pela criança pode ter a natureza da aprendizagem de uma segunda língua.”

Para discutir tais fenômenos, serão apresentados os resultados sobre as mudanças sintáticas que atuam sobre o sistema pronominal do PB, mais especificamente, na função de sujeito, objeto direto e indireto, a partir de duas amostras: narrativas escritas de cem alunos de Ensino Fundamental, Médio e Superior e 75 crônicas de jornais cariocas. Em relação ao parâmetro de sujeito nulo, por exemplo, o PB aproxima-se mais de línguas de sujeito obrigatório, como o inglês e o francês, do que do português europeu, do espanhol e do italiano.

Pretende-se verificar até que ponto certas variantes já se encontram implementadas também na escrita; discutir a distância entre “norma objetiva” e “norma subjetiva; propor a adoção de uma nova postura pedagógica.


AS FACES DO IMPERATIVO NO DISCURSO RELIGIOSO

Arlene da Fonseca Figueira (FEUC e FIC)

 

Nosso tema é, de certa forma, uma retomada do estudo que desenvolvemos em nossa dissertação (Fonseca, 2000), quando, então, tratamos da variação do imperativo , a partir de um corpus diversificado: interação terapeuta-aluno (aulas de ginástica para a terceira idade), interação professor-aluno (aulas de ensino fundamental) e conversas espontâneas ( Roncarati, 1996a). Desta feita, resolvemos investigar o comportamento do imperativo em um corpus especialmente adequado: o discurso religioso, lócus da autoridade simbólica, instituída e reconhecida a partir de um contrato de delegação tacitamente firmado entre a Igreja, o dirigente religioso e o fiel. Os corpora emergem de encontros institucionalizados cujas condições de produção, notadamente diretivas, favorecem o emprego do imperativo. Com relação aos usos do imperativo nesse domínio, investigamos como o dirigente religioso codifica o imperativo, que tipo de efeitos de sentido ele intenta elicitar nos fiéis (efeitos ritualizados corporificados e simbólicos) e como estes os interpretam. Para darmos conta dos usos do imperativo e de seus efeitos pretendidos, consideramos necessário adotar uma postura interdisciplinar para ir além do nível lingüístico e atingir os níveis simbólico e social. Contudo, a principal fundamentação teórica de nosso estudo advém do Funcionalismo givoniano (1979, 1985,1989,1993 e 1995). Nossos resultados apontam para uma riqueza de efeitos de sentido do imperativo em um contexto tipificado pela assimetria entre os participantes (o dirigente religioso e o fiel) e entre o mundo espiritual (Deus) e o temporal (Homem). Os resultados atestam que o domínio do discurso religioso apresenta uma retórica própria, em que a fala do porta-voz (o líder religioso) concentra o capital simbólico e se manifesta em situação solene, detendo uma autoridade cujos limites coincidem com a delegação institucional que o legitima. Caracterizado pela ilusão de reversibilidade de papéis, o discurso do dirigente religioso é a expressão da auctoritas, e, enquanto tal, suas construções imperativas exibem efeito performativo, incitando respostas corporificadas e simbólicas por parte do fiel. Nosso interesse é desvendar a gradiência do imperativo em formas lingüísticas próximas ou distanciadas da forma padrão, formas estas que emergem em função das diferentes condições de produção em que se inscrevem os usos do imperativo, evidenciando uma abordagem lingüística que considere a variação do imperativo para sua melhor aplicação em sala de aula.


AS FORMAS NOMINAIS DO LATIM
E SUAS PRODUTIVIDADES NA LÍNGUA PORTUGUESA

Washington da Silva Reis (UFRJ)

 

O trabalho em questão consiste de um estudo das formas nominais da língua latina – Infinitivo Passado, Infinitivo Presente, Infinitivo Futuro, Particípio Passado, Particípio Presente, Particípio Futuro, Gerúndio, Gerundivo e Supino – e de sua produtividade na língua portuguesa.

Para tanto, fez-se um estudo filológico para traçar o percurso de tais elementos do latim para o português, através do qual detectou-se que muitos dos nomes verbais do latim sofreram gramaticalização na passagem para o português.

A título de exemplificação, verifica-se que o gerundivo é encontrado como substantivo na língua portuguesa – assim como em outras línguas românicas e na língua inglesa –, tendo sido uma forma nominal do verbo no latim. Palavras como “agenda”, “merenda”, “moenda”, et caetera, comprovam o fato.

Post scriptum: Este trabalho é dedicado à memória do Magnus Magister Linguae Latinae Brasiliensis Ernesto de Faria Júnior, cujo centenário de nascimento se celebraria neste ano e de cujas obras este trabalho valeu-se sobremaneira.


As frases-feitas na fala - efeitos de sentido para além da idiomaticidade e fixidade

Flamínia M.M. Lodovici

 

A investigação da idiomaticidade e/ou dos domínios em interface, o fraseológico ou das chamadas frases-feitas, neste século XXI, cresce tão aceleradamente nos países europeus e americanos que se pode falar de um boom mundial, tantas são as comunicações em eventos internacionais, cursos, foruns, publicações, releituras, nos inúmeros programas de pesquisa em andamento. Diante dos paradigmas existentes com determinação do significado, torna-se fundamental que a Lingüística proponha, com base em pesquisa fundamentada no interacionismo dialógico, uma via alternativa para tratar da natureza da idiomaticidade, que desconstrua o imaginário cristalizado sobre o idiomático na língua, afastando a questão fixiológica, da problemática trazida por manifestações idiomáticas da fala, onde implicado está o falante subvertendo ordem ou restrições mas fazendo sentido e graça onde parece não haver sentido nem peso. Tais avanços no domínio da investigação idiomático/fraseológica são de grande valia para uma competente prática discursiva nas várias áreas científicas ou nos discursos (jornalístico, publicitário, acadêmico etc.), no ensino do português como língua materna e especialmente de línguas não-maternas. Espaço também para uma reflexão crítica acerca da dicionarização - aplicação da fraseologia que precisa pautar-se em critérios mais determinantes e adequados à realidade das línguas.


atividades de leitura em livros didáticos

Priscila Moret Pio Maciel (UFRJ)

 

Este trabalho visa a observar a forma como se apresentam, nos livros didáticos do português de 5ª a 8ª série do Ensino Médio, as atividades de interpretação de texto. Nesse sentido esta pesquisa busca verificar a natureza das atividades realizadas antes e depois da leitura dos textos mediante o que é proposto pelos livros didáticos.Interessou em particular detectar as formas de estímulo para que os alunos realizem ações metacognitivas de leitura – a saber, o levantamento de hipóteses sobre o texto e o estabelecimento de objetivos para lê-lo.Tencionou-se verificar também se as perguntas relativas aos textos suscitam nos alunos reflexões de ordem cultural, interacional e lingüístico, mas isso não foi uma totalidade no corpus analisado, que se pautou por questões de transcrição das informações dos textos.Tais observações têm por objetivo verificar quais são as fontes e pistas de construção de significado que os livros didáticos oferecem aos alunos, para que eles possam a partir delas elaborar processos cognitivos capazes de os levar a cognizar acerca do texto.Esta atividade é parte de uma pesquisa mais ampla, em que se procurará definir os aspectos sócio-cognitivos da construção de significado dos alunos quando eles respondem as perguntas de interpretação de texto dos livros didáticos com o que eles apresentam como pistas semânticas, quando supostamente “acertam” as perguntas, e também quando supostamente as “erram”, já que se propõe aqui que toda forma de resposta lingüística a questão de leitura resulta de elaboração cognitiva.


Avaliando a avaliação:
os saberes sócio-cognitivos e o Enem

Fernanda Araújo Magalhães (UFRJ)

 

O presente trabalho vem observar as discrepâncias existentes entre as respostas dadas pelos alunos e o gabarito tido como oficial das avaliações escolares. A partir dos feedbacks obtidos dos participantes por meio do corpus do teste do Enem (Exame nacional de ensino médio), o qual é um modelo de avaliação escolar elaborado essencialmente por questões interpretativas, hipotetiza-se que os candidatos que forneceram respostas contrárias às oficiais realizaram processos cognitivos idênticos aos dos que se igualaram ao padrão institucional. Isso é um indicativo de que esses processos se configuram através das interações intersubjetivas de fundo sócio-cultural.Partindo da premissa que os conceitos de certo e errado representam valores institucionais, almejou-se corroborar a hipótese de que as respostas dos participantes ditas erradas pela instituição escolar, representada, na moldura comunicativa sala de aula, pelo professor, enquadra-se numa lógica regida pelos saberes acumulado e processual dentro de uma perspectiva sócio-cognitiva da linguagem. Esses saberes fundamentam a cognição humana, construída a partir de conhecimentos, conceitos, percepções e experiências altamente organizadas, e pela manipulação desses conhecimentos, dando luz a outros. Isto quer dizer que as diversificadas soluções apresentadas pelos candidatos são expansões de natureza essencialmente cognitiva.O trabalho, incipiente em suas pesquisas, apresenta, como base fulcral, a seleção e análise de uma dada atividade do exame supracitado aplicada em turmas de pré-vestibular, restringindo como único critério de seleção a presença de um texto interpretativo que suscita o direcionamento de diferentes e possíveis respostas. De um lado, as respostas dos alunos comparadas às propostas pelo Enem; de outro, a sistematização das respostas para se chegar a elementos acumulados e processuais comuns. Isto é, através da constatação de que, freqüentes vezes, as respostas dos alunos apresentam um índice baixo de coincidências, conjectura-se que há mais de uma resposta possível para uma mesma questão, levando-se ao questionamento do que levaria a resposta do gabarito oficial a ser tida como “certa” e por que o grande número de não coincidências com esse gabarito oficializado.


BERNARDO SOARES
E A ESCRITA IMPOSSÍVEL DO DESASSOSSEGO

Maristela Pimenta (UBM)
Tatiana Pequeno da Silva (UBM e UFRJ)

 

O presente trabalho tenciona encontrar elementos trágicos que se estabelecem em o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros e semi-heterônimo de Fernando Pessoa. Como elemento principal de nosso quadro teórico, buscamos em Fernando Rei da nossa Baviera, de Eduardo Lourenço, os fundamentais argumentos que nos ajudam a sustentar a hipótese de que o texto fragmentado de Soares necessariamente se configura como impossibilidade de manutenção de uma escrita linear ou nuclear, conforme já verificamos nas outras heteronímias pessoanas. Assim, a literatura de Fernando Pessoa encontra nessa “autobiografia sem factos” um arcabouço importante no entendimento das identidades erigidas por esse mestre de máscaras que desconstrói para sempre o estado vigente da poesia e da ficção no começo do século XX.


Cantigas de Santa Maria
Catolicismo e Linguagem de uma Época

Leandro Garcia Rodrigues (PUC-RJ, FAMA e FEUC)

 

Pesquisar o Trovadorismo português é fazer um retorno a uma época repleta de magia, mistério, fé e arte – a Idade Média. E é justamente nesse momento da história portuguesa que nos situaremos para desenvolver este trabalho. Nossa pesquisa se situa no campo da Semiologia, isto é, preferimos não fazer apenas análises estilísticas acerca dessas cantigas, mas fazer um levantamento histórico da devoção em honra à Virgem Maria no solo medieval português – os conventos, as ordens monásticas, os locais de peregrinação, as ermidas e a própria liturgia mariana. O objetivo é demonstrar como esse contexto profundamente católico produziu uma linguagem poética igualmente religiosa: o Cancioneiro de Santa Maria.


Crítica textual e genética
As possibilidade de normas norteadoras
da edição do conto "A bela e a fera"
de Clarice Lispector
(ms. I-45,22,032 FBN-RJ)

Cíntia Marcela de Souza (UBM)
Sandro Marcio Drumond Alves (UFRJ e UFMG)

 

Esse trabalho toma como corpus o conto "A Bela e a Fera" da escritora Clarice Lispector. Nosso campo de estudo situa-se entre a Língua e a Literatura e procura, tão somente, tratar dos aspectos textuais de elaboração e fixação do texto. Estamos inseridos na área de conhecimento da Filologia e vertemos nosso trabalho para o campo da Crítica Textual e Crítica Genética. Nossa proposta é mostrar uma possível realização de edição paleográfica do manuscrito (Ms.) I-45,22,032 de 1977 da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (FBN-RJ) e de uma possível edição crítico-genética do conto com base no manuscrito e na edição impressa de 1999, da editora Rocco. Nosso intuito inicial é apresentar o material e apontar possíveis normas que nortearão as edições finais e como devem ser tratadas as variantes textuais desse trabalho. Nosso aporte teórico está centrado em Cambraia (2005) e Salles (1992).


DIA NACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

Ir. Elvo Clemente (PUCRS)

 

A data de 5 de novembro desde muito tempo era o Dia da Cultura, no Brasil, motivado pelo nascimento do eminente Rui Barbosa em 1849. A partir de 2006, além da celebração tradicional, por lei federal vai cultuar a Língua Portuguesa. A língua neolatina que se desenvolveu no território lusitano se transplantou à África, à América, desde a aurora de 1500. O que significa Dia Nacional da Língua Portuguesa? É uma pausa em nosso frenesi cotidiano para uma reflexão sobre a língua, instrumento fundamental de comunicação, de pessoa para pessoa. Não se concebe uma sociedade sem a sua língua articulada. O ser humano é um ser de relação, como seria o relacionamento sem a linguagem? Não damos o valor que a língua possui porque não imaginamos como seria o convívio de duas pessoas, de um grupo de pessoas sem a linguagem. É muito profunda a expressão do grande humanista Miguel de Unamuno: “La lengua es la sangre de mì espiritu!”.

Sangue é vida, sangue é tudo para um organismo vivo. O amor, a prática clara e correta da língua é a base de toda a cultura, de uma civilização que floresce em suas artes, em sua ciência e tecnologia.

Fernando Pessoa, poeta maior da língua lusitana tem a expressão que revela sua vida e seu agir. “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

Desde os primeiros balbucios até a o derradeiro suspiro a língua é a expressão mais lídima do ser humano. Cultivemos e cultuemos a “última flor do Lácio” que viceja e cresce em nossos lábios e se transforma em luz e vida em nossas ações.


Edições de manuscritos históricos
da cidade de Barra Mansa
o caso do testamento da Fazenda da Posse

Katiane dos Anjos Silva Curi Moreira (UBM)
Beatriz Breves Ferreira (UBM)

 

Este trabalho tem por objetivo traçar as relações entre a História e a Crítica Textual na produção de edições de textos históricos da cidade de Barra Mansa, no sul fluminense. Além de abordar a necessidade e a importância da edição de fontes históricas manuscritas, apresenta, também, um breve panorama das ciências auxiliares dos campos de saberes relacionados. O corpus que estabelecemos para a realização de tal trabalho é o testamento da Fazenda da Posse, na cidade de Barra Mansa. Para tanto realizamos uma edição facsímile e uma paleográfica do documento manuscrito selecionado. A partir das informações contidas no testemunho único, conseguimos reconstruir alguns fatos históricos importantes para a história da cidade de Barra Mansa (RJ). Concluímos, dessa maneira, que a edição de textos históricos estabelece uma aproximação entre a crítica textual e a História, além de apontar a necessidade da edição de textos históricos para funcionarem como possíveis objetos de estudos lingüísticos.


elaboração de atividades sócio-culturais
nas aulas de português para o ensino médio

Angela Maria Felipe de Souza (FAMA)

 

O propósito desta oficina é orientar e desenvolver diversas atividades práticas com diferentes elementos sócio-culturais como: músicas, festas, comidas típicas, etc.

Para a realização do trabalho, abordaremos o tema fazendo, primeiramente, algumas considerações gerais sobre a importância de elementos sócio-culturais no contexto do ensino da língua portuguesa para o ensino médio.

No segundo momento, os participantes deverão construir atividades, a partir de vários tipos de textos escritos e orais, considerando os diferentes meios em que circulam: televisão, Internet, revistas, entre outros.


ENSINO A DISTÂNCIA OU ENSINO À DISTÂNCIA?
UMA QUESTÃO A SER VISTA DE PERTO

Sérgio Paulo Gomes de Vasconcelos

 

Em um grupo de discussões sobre Educação a Distância (EAD) surgiu a questão acerca do uso ou não do acento grave na frase. O trabalho consiste em analisar as tentativas dadas, por alguns membros da referida lista, na justificativa do uso ou não uso do acento grave.

Para tanto, utilizaremos como corpus as mensagens enviadas pelo grupo como tentativas de explicação do problema e procuraremos informar a formação acadêmica dos participantes. A partir desses dados, analisaremos as mensagens à luz dos conhecimentos lingüístico e gramatical disponíveis.

Nosso objetivo final é tentar identificar em que são baseados os raciocínios lingüísticos desse pequeno grupo de usuários da língua na tentativa de solução desse problema específico. Acreditamos que o mesmo raciocínio orienta a solução de outros problemas lingüísticos que orientam os usuários da língua pesquisados.


ESTRANGEIRISMOS DE LÍNGUA INGLESA

(O CASO DOS ANTROPÔNIMOS)

Antônio Elias Lima Freitas (FEUDUC)

 

O cerne desta pesquisa é a antroponímia associada aos estrangeirismos (vinculados à adoção de nomes em inglês) que ocorre em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. A pesquisa está relacionada ao estudo sociolingüístico no sistema de designação de nomes próprios encontrados nos municípios da região observando-se como tais estrangeirismos aparecem, o porquê dos pais adotarem tais nomes estrangeiros ingleses em vez de nomes lavrados em português além, do estudo da identidade social dos pais que adotam tais nomes e dos filhos que tiveram os seus nomes registrados em inglês. Finalmente, a pesquisa terá uma forma visual distinta através de uma demonstração cartográfica do resultado da coleta de dados. O trabalho apresenta-se em duas etapas distintas: a primeira, de forma panorâmica, demonstrando a presença de estrangeirismos de língua inglesa no português do Brasil nos municípios da Baixada Fluminense, em diversos corpora e, em situações diversas (  a adoção de nomes próprios, na  música, na informática, no comércio e nos alimentos ). A segunda fase  ( a elaboração da tese ), versará exclusivamente sobre os antropônimos estrangeiros de língua inglesa encontrados nas escolas da rede pública municipal do primeiro distrito administrativo de Duque de Caxias.


Formação de formadores:
O docente do ensino superior
é um profissional da educação

Paula Cancella Januario (UFRJ)

 

Geralmente, professores universitários identificam-se através da sua área de atuação e não como docentes dos cursos que lecionam. Grande parte desses educadores, não assume sua identidade docente e a encaram como uma forma de complementação salarial, pois o título de professor, sozinho, sugere uma identidade menor, pois socialmente parece se referir aos professores primários.

Essa problemática aponta para questões fundamentais: Que formação estes profissionais tiveram? Como irão contribuir para a formação dos alunos se eles mesmos não se caracterizam no exercício da sua profissão? Como formar os educadores na atualidade?

Logo, esta palestra terá como objetivo central, destacar a importância da formação pedagógica para os docentes do ensino superior, em especial os de letras.

A formação pedagógica é um tema complexo, mas de extrema relevância, uma vez que a maior parte das atividades docentes gira em torno da sala de aula.

Precisa-se considerar que a atividade profissional de todo docente possui uma natureza pedagógica, isto é, vincula-se a objetivos educativos de formação humana e a processos metodológicos e organizacionais de construção e apropriação de saberes e modos de atuação.

Por isso, para ensinar o professor necessita de conhecimentos e práticas que ultrapassem o campo de sua especialidade, cada docente deverá ter uma diretriz orientada da prática educativa.

Logo, serão relatadas neste trabalho, algumas considerações e reflexões sobre as questões e ações pertinentes à formação do docente de letras, e sua contribuição na construção de uma prática pedagógica intencional, capaz de provocar situações favoráveis ao desenvolvimento do aprendiz nas diferentes áreas do conhecimento.


GÊNERO, VOGAIS TEMÁTICAS E PROTÓTIPOS

Mauro José Rocha do Nascimento (CEFETEQ)

 

Este trabalho parte dos pressupostos teóricos da Lingüística Cognitiva, mais especificamente do modelo da Gramática das Construções desenvolvido por Goldberg (1995) e da teoria dos protótipos, conforme em Langacker (1987).

Neste trabalho, fazemos uma adaptação do modelo de Goldberg às construções de base morfológica. Centramos foco na classe dos substantivos, os quais se distribuem em conjuntos de construções cuja forma está relacionada às vogais temáticas e cujo significado está relacionado ao gênero. A partir de testes realizados com falantes, comprovamos que, quanto à forma, os falantes relacionam automaticamente as construções X-o ao gênero masculino e X-a ao feminino. Essas seriam as construções prototípicas de cada um dos gêneros. Há uma gradação decrescente de prototipicidade, em que as menos prototípicas são as construções masculinas em X-a e a femininas em X-o.

Quanto ao significado, com base em Lakoff & Johnson (1980), que afirmam que conceptualizamos o mundo a partir de noções básicas de nossa experiência corporal, sustentamos que os falantes conceptualizam a noção gramatical de gênero em termos de diferenças de sexo. A construção de gênero prototípica seria a do tipo menino / menina, em que a vogal temática –a está relacionada a sexo feminino e a vogal temática –o ao masculino.


Gênero do substantivo
como um processo derivacional

Flávia Lannes Vieira de Aguiar (UERJ)

 

O gênero do substantivo é visto pela tradição como um processo flexional. No entanto alguns estudiosos acreditam que, na verdade, trata-se de um processo de derivação sufixal. Este trabalho tem por objetivo confrontar a visão gramatical quanto ao gênero do substantivo, com outras correntes teóricas que põem em dúvida a sua existência, a fim de mostrar que o gênero do substantivo não se trata de um processo flexional, mas de um processo derivacional, e enfocar a confusão feita pela gramática ao relacionar sexo e gênero como sendo iguais, como se todos os substantivos tivessem referente sexuado. O aparato teórico utilizado no presente trabalho é o de Câmara Jr (1985), Basílio (1989), Botelho (2004), Freitas (1981), Kehdi (2005), Matthews (1974), Rocha Lima (2003) e Sandmann (1992).


Integrar para não entregar
da formação do Brasil monolingüe
à recomposição de seus silêncios

Augusto Marcos Fagundes Oliveira (CESUPI e UESC)

 

Este trabalho tem como referência a política de formação do Estado brasileiro desde sua condição de colônia ultramarina portuguesa, sua política de formação como uma nação monolingüe determinando o silêncio, o etnocídio ou mesmo genocídio aos modelos populares e culturais, assim como sua resistência, ao tempo que, sob o século XX, com o Integrar para não Entregar se fizeram intentos do modelo monolíngüe com reforços de governos fortes e de políticas ditatoriais integracionistas, como ocorreu, por exemplo, na política de Vargas (1930-1945; 1951-1954) e na Ditadura Militar (1964-1984). Nesta última ocorreu o Projeto Rondon, paradoxo de um programa de reconhecimento da diversidade e desigualdade sociocultural brasileira, que se iniciou nos rincões das Forças Armadas, num diálogo entre comunidade universitária e comunidades diversas sob o discurso de levar ao povo o conhecimento acadêmico e algo de modernização. Recentemente voltou como aliança da luta estudantil da UNE – União Nacional dos Estudantes-, órgão combativo da resistência à ditadura, e do Ministério da Defesa do Brasil, com uma ação interministerial e social, através também de Instituições de Ensino Superior, que põem nos interesses nacionais, a preservação e conservação de sua pluralidade cultural recompondo o silêncio histórico como porta-voz atual da memória.


Jogo e linguagem
uma abordagem funcionalista
de uma situação motriz particular

José Ricardo da Silva Ramos (UFF)

 

Resumo: Ao se assistir a um evento esportivo em suas várias maneiras de uso, é possível verificar situações em que as ações normativas do jogo utilizadas por seus jogadores apresentam um modo diferente de uso daquelas prescritas pelas orientações padronizadas do esporte oficial. A presente pesquisa se propõe a realizar uma análise funcionalista dos jogos de enfrentamento, mais especificamente de um jogo de voleibol de praia lúdico, no campo de Estudos da Linguagem. Isso se dará por meio de uma análise funcionalista, ou seja, o jogo será analisado como um sistema sujeito a pressões oriundas das situações interativas dos seus jogadores e como resultado da necessidade de jogar de um grupo. Tem-se, como foco principal, as ações motrizes de um grupo de jogadores de vôlei de areia (o vôlei do Pinheiro), observadas dentro do contexto do jogo na praia de Icaraí, Niterói, RJ. Procurou-se identificar e analisar como os jogadores (ex-atletas do voleibol de quadra) se organizam para jogar e efetuar formas e ações motrizes tão distintas da norma oficial do vôlei de areia e como os mesmos classificam e dão sentido à sua maneira de usar o jogo. Para a realização deste estudo, buscamos suporte teórico às descrições e explicações em Givón (1995), Votre (2004), Parlebas (1999), Cunha, Oliveira e Martelotta (2003). Desse modo, pretende-se, neste estudo, apresentar as ações motrizes do vôlei pragmático, refutando a abordagem estruturalista do jogo conforme postulada por Parlebas (1999), além de analisar como o referido conteúdo motor pode ser interpretado pelas estratégias criativas utilizadas pelos jogadores para organizar, funcionalmente, sua motricidade para uma determinada situação interativa, como um jogo de voleibol.


Leitura e inclusão em aulas de I/LE:
Uma análise qualitativa e quantitativa

Vanessa Barbosa Maia Silva (UBM)

 

Este trabalho tem como objetivo identificar se a inclusão social deste aluno acontece somente de forma geográfica dentro de sala de aula ou se é realmente inclusão inédita. Pretendemos também avaliar de forma quantitativa e qualitativa, na educação especial a leitura em Língua Inglesa como Língua Estrangeira (I/LE). Precedemos este estudo, através principalmente da Leitura de KLEIMAN, SOLE , KATO e MARCUSCHI. Supomos que as aptidões de leitura deste aluno seriam as mesmas desenvolvidas pelos demais alunos da sala; para respostas às perguntas do tipo Objetiva e Inferencial e para as perguntas tipo Global e Metalingüísticas, as aptidões do aluno em regime não seria a mesma de sua turma.


Leitura Instrumental
Propostas de material didático
para pré-vestibular

José Santos C. Ríos (UBM)

 

Este trabalho tem como objetivo tentar identificar os caminhos mais certos nas análises de provas de vestibular em língua estrangeira e futuramente, na proposta de um material do uso de textos na preparação das questões não-específicas de provas de vestibular das Universidades Federais no Rio de Janeiro (UFRJ, UFRRJ, UFF e UNIRIO) para uma proposta de elaboração de material didático para preparação de vestibulares destas universidades, utilizando como instrumental teórico Kleiman (1989), Solé (1998) e Fraga (2003).


Língua portuguesa
exPressividade interacional

Célia Maria Paula de Barros (UFF)
Fernanda Marconi da Costa (UFF)
Maria Antonia da Costa Lobo (ABRAFIL)
Maria Helena Carvalho Silva (UFF)
Washington da Silva Reis (UFRJ)

 

A priori, o processo de comunicação é um ato provisório e dependente de uma hierarquia interacional, baseada na expressividade que visa a alcançar objetivos amplos, em função de um contexto no qual o referido processo se insere.

Este contexto passa por um processamento cognitivo que envolve conhecimentos prévios recorrentes a uma memória do cotidiano, através de imagens inferidas em mensagens explícitas ou implícitas – intenções comunicativas não faltam!

Desde que percebidas e identificadas, essas intenções são, em verdade, integradoras de sentido e de significação para uma efetiva expressividade, em diferentes áreas de conhecimento que da língua portuguesa se servem.


LÍNGUA, CULTURA, PERMANÊNCIA:
DOS VALORES E SABERES COMPARTILHADOS

Cidmar Teodoro Pais (USP e UBC)

 

Este trabalho propôs-se a examinar alguns aspectos das relações que se estabelecem entre língua e cultura, considerando-as em seu funcionamento no seio da vida social, em sua mudança, no eixo do tempo, em sua continuidade, conservação e renovação no processo histórico. Insere-se a pesquisa no âmbito das tendências mais recentes da semiótica das culturas, entendida como uma ciência pluridisciplinar da interpretação, no campo das ciências humanas e sociais. Uma língua dita natural ou histórica, constitui, com os discursos que a manifestam, o processo semiótico mais abrangente e importante, dentre os processos semióticos verbais, não-verbais e complexos que dão sustentação a uma comunidade sociocultural. De fato, a língua e os seus discursos definem-se como o espaço semiótico privilegiado em que se produz, sustenta, reflete, enriquece e transforma a ‘visão do mundo’ do grupo, ou, mais exatamente, o mundo semioticamente construído do grupo. As diversidades lingüística, cultural, social e histórica conferem aos homens a sua maior riqueza, a sua condição humana. Na época contemporânea, encontram-se ameaçadas pelos efeitos perversos da globalização. É preciso lembrar, pois, que a língua e os seus discursos caracterizam uma comunidade sociocultural e a distinguem das demais por um conjunto de saberes e valores compartilhados, como também por seu imaginário coletivo. Asseguram estes a sua identidade cultural, o sentimento de integração, a sua memória social, a consciência de sua permanência e de sua continuidade ao longo do tempo.


Machado de Assis e a estética da recepção

Marillia Raeder Auar Oliveira (UERJ/FAPERJ)

 

A sexualidade de um jovem de dezessete anos despertada por uma senhora casada de trinta anos na sociedade brasileira oitocentista. Neste juízo consiste o conto “Missa do galo”, de Machado de Assis. A partir dele, delineia-se um jogo de indecidibilidades e vazios que caberá ao leitor preencher. Tendo como base este conto e as questões por ele levantadas, a presente comunicação propõe uma discussão acerca da interpretação literária fundamentada na estética da recepção – mais especificamente uma de suas maiores contribuições: a teoria do efeito, de Wolfgang Iser. Pretende-se ainda uma exposição acerca dos recursos estilísticos e de linguagem de que se utiliza Machado de Assis para compor fina e originalmente sua obra.


MENSALÃO
UMA PROPOSTA DE ANÁLISE DE SUA FORMAÇÃO E USO

Maria Celeste Sarachú Manitto (UBM)

 

Este trabalho propõe uma análise da palavra mensalão, vocábulo que os mais diversos órgãos de imprensa do país vêm divulgando desde o mês de junho de 2005. Numa entrevista concedida a um repórter, um deputado federal empregou a palavra para referir-se a determinadas quantias de dinheiro que alguns parlamentares estariam recebendo em troca de votos. O trabalho reflete a criação do neologismo e os mecanismos responsáveis pela formação da palavra, discute a polissemia, assim como questiona se é um produto lexical regular ou se apresenta algum tipo de irregularidade.


No escurinho do cinema
Um jogo de sedução
entre a mídia e a sala de aula

Gabriela Menezes Passarelli Alves dos Santos

 

Para muitos alunos, a comunicação por meio da linguagem oral é dificultada por causa da falta de vocabulário e articulação correta do mesmo. Esta oficina visa resgatar o diálogo como meio de produção de conhecimento, utilizando-se de trechos de vídeos que estimulem a expressão oral a partir de um universo fictício, que por ,  muitas vezes, retratam situações, circunstâncias e ,  até mesmo, valores que necessitam ser  interiorizados hoje.


NOTAS SOBRE AS CARTAS PORTUGUESAS
DE MARIANA ALCOFORADO

Danieli Moreira da Silva (UBM)

 

No ano de 1669, surgiu em Paris um livro intitulado Lettres portugaises traduites em français (“Cartas Portuguesas traduzidas para o francês”), publicado por Claude Barbin, o editor de La Fontaine e de Mme. De La Fayette. Tratava-se de cinco cartas, escritas por uma freira portuguesa a um oficial do exército francês. Por motivo de abandono, da distância, da solidão, ou até mesmo de desabafo, Mariana Alcoforado irá escrever ao Conde de Chamilly as cartas mais belas da literatura portuguesa. A enorme dor que sentira durante todos os anos que ainda vivera, por causa de tanto amor, faz com que as outras freiras compartilhem com ela um sentimento que nenhuma delas tenham visto igual, uma expressão de uma dor tão grande, causada por um amor tão forte, que nenhuma delas terá jamais coragem de a condenar. Mariana transcende as perspectivas de um convento, se mostra alheia ao mundo que vive que parece ser aos olhos dela, injusto e incerto. Busca um sentido a sua vida, algo que a realize que a faça sentir estar viva, e é através desse amor, que a fascina, que faz com que veja as duas faces da felicidade, que se consome e sobrevive tanto tempo. Embora estas cartas tenham sido escritas no século XVII, época em que o feminino não tinha escolhas, não tinha desejos, tão pouco vontades, explicar a possibilidade de um sentimento verdadeiro, sustentado pelo amor e pela dor, torna-se o objeto de pesquisa do presente trabalho.


O canto de amor e paz da língua portuguesa
Crônica, samba e leitura numa proposta de aula

Maria Verônica Aguilera (UERJ)

 

Ao compasso das comemorações pelo Dia Nacional da Língua Portuguesa, propomos a releitura da crônica “O canto de amor e paz da língua portuguesa”, publicada em jornal diário, para a qual convergem gêneros e linguagens diversas, que se estruturam, todavia, numa mesma unidade de aula de Português, conforme proposta didático-pedagógica, multidisciplinar e interdisciplinar, adaptável a diferentes níveis de ensino. A unidade em pauta, que exemplifica possibilidades de desdobramento em outras atividades, abrange a exibição de vídeo sobre um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro, audição do respectivo samba-enredo, apreciação de fotografias relacionadas ao tema desenvolvido na crônica e leitura, em prosa e verso, dos demais textos que perpassam pelo material jornalístico.

A crônica foi escrita no carnaval carioca de 200..., quando a Escola de Samba Unidos da Tijuca trouxe para a Passarela do Samba o enredo “ O sol brilha eternamente sobre o mundo de língua portuguesa”. Em visão simultaneamente diacrônica e sincrônica da língua, o texto explora aspectos históricos e lingüísticos, comenta e contextualiza as metáforas do samba-enredo, evolui através da intertextualidade de citações e autores, de diferentes épocas e ressalta a riqueza e a diversidade étnica e cultural que caracterizam os desfiles das grandes escolas de samba do Rio.


O cordel em oficina
é do que vamos tratar
ensinando com arte e rima
vale a pena educar

Annelise Montero
Isabelle Lins

 

Trabalharemos nesta oficina o gênero textual cordel, estudando sua estrutura, sua métrica e sua linguagem. Nosso trabalho tem por objetivo romper com o preconceito literário existente sobre o cordel, que muitas vezes é tido como “inferior” aos demais gêneros textuais. Mostraremos que através do cordel os alunos aprendem a utilizar a linguagem e ao mesmo tempo se divertem com o ensino. Este processo, portanto torna-se prazeroso tanto ao estudante quanto ao professor.

Arte e linguagem fazem do gênero textual cordel uma rica expressão literária que utilizada em sala de aula, faz de nossos alunos não apenas leitores, mas também produtores e artistas literários.


O Ensino da Língua Portuguesa Instrumental
– leitura e escrita para Tecnológicas
– o caso da UEZO

Carmem Lúcia Pereira Praxedes (UERJ e UEZO)

O presente trabalho é produto do projeto de pesquisa Ensino e Práticas de Ensino em Línguas – línguas instrumentais e o universo do discurso tecnológico: caracterização, aplicações e produção de material didático, que faz parte dos estudos que estamos realizando desde 2003 sobre o ensino-aprendizagem de línguas. A nossa experiência educacional levou-nos a perceber a carência ainda existente na aplicação de teorias facilitadoras do processo de ensino-aprendizagem, bem como a necessidade crescente de organização de material didático que seja possível atender ao crescente número de estudantes com tempo reduzido para os estudos, numa sociedade do E-Learning. Neste sentido, o trabalho que ora apresentamos buscou associar às teorias lingüísticas e semióticas a sua aplicação no cotidiano escolar.


O lugar de Agostinho Barbosa (1611)
entre os primeiros lexicógrafos do português

Brian Franklin Head (Universidade do Minho)

 

Na história da lexicografia portuguesa, Agostinho Barbosa (1611) foi o segundo lexicógrafo português a tratar do vocabulário da língua vernácula. A comparação entre as obras de Jerónimo Cardoso, o primeiro lexicógrafo português (1562-63, 1568-69), Agostinho Barbosa, o segundo (1611) e o terceiro, Bento Pereira (1647), revela diferenças de diversas naturezas: na seleção, na forma e na ordenação das entradas, no estrutura e no conteúdo dos verbetes, no tratamento de variantes (geográficas, sociais, estilísticas, históricas), na estratégia da elaboração das definições, no uso de citações, no emprego de referências remissivas, na fraseologia latina e portuguesa, no lugar do latim de modo geral, nas informações gramaticais, na representação gráfica.

O presente estudo ocupa-se das diferenças entre as obras referidas no que se refere às propriedades mencionadas. A comparação entre as características lexicográficas dos primeiros dicionários da língua portuguesa editados em Portugal, revela que o Dictionarium lusitanicolatinum (1611) de Agostinho Barbosa (embora tenha recebido relativamente pouca atenção por parte dos estudiosos da historia da lexicografia portuguesa) apresenta algumas qualidades que se destacam em confronto com as obras de Jerónimo Cardoso e Bento Pereira.


O que é Gramática?

José Mario Botelho (UERJ, FEUDUC e ABRAFIL)

 

A primeira resposta que vem à cabeça de um professor de Língua Portuguesa pouco cuidadoso quanto a respostas a certas perguntas, quando lhe perguntam o que é “gramática”, é que se trata de “o nome de uma disciplina que procura estabelecer o ‘certo’ e o ‘errado’ na língua” (Perini, 2006, p. 23). Ou como defini Aurélio (1975, p. 697), é “o estudo ou tratado dos fatos da linguagem, falada e escrita, e das leis naturais que a regulam”.

Perini (Ibid, p. 23-4) também apresenta mais duas definições: “chama-se gramática um sistema de regras, unidades e estruturas que o falante de uma língua tem programado em sua memória e que lhe permite usar sua língua” e “chama-se também gr